"Todas as manhãs são iguais.
O pequeno quarto guarda segredos.
Olha para fotografia presa no canto direito do espelho quebrado.
É como um pavio aceso, contornando a moldura enferrujada.
A pouca luz mostra o desenho recortado,
o sorriso da criança na superfície do papel colado ao vidro,
e o rosto sério da mulher
são formas de unir vários tempos em um só tempo.
É uma espécie de viver em metáfora a fotografia.
Decide mudar.
Alguma coisa está fora do lugar,
há partes desiguais na cor e na textura.
Estilhaça mais o vidro.
Outro desenho se apresenta
em um fluxo contínuo de pequenos pedaços
espalhados no retângulo cuja imagem vai ficando distorcida.
O sorriso já tem cortes na face do menino.
Os raios do sol irrigados pelas frestas da janela
ofuscam os olhos da mulher.
Não são mais os mesmos de horas antes.
A mecha luminosa transforma a imagem.
Outra vida imaginária habita aquele quarto.
Neste nascimento, a chuva chega como um presságio.
Na rua não se vive só de imagens.
Dentro, o arco se abre, os signos se revelam, as dores são esquecidas.
Se algo sobrevive é a história hoje insistente nos pensamentos.
Pisa os poucos metros existentes entre o recordar e o esquecer,
entre a metáfora e o real, entre a chuva de fora e a luz de dentro.
Lança um último olhar,
no espelho os estilhaços brilham, formam anéis.
E o que está escrito em cada um
são histórias de começos e fins de outras histórias.
A fotografia inicia uma lenta curva para cair.
Nas palmas das mãos encontram−se as linhas tortas do passado.
Vira−se para a porta.
Do outro lado não há lembranças, apenas perguntas sem repostas.
As noites nunca mais serão as mesmas
sem a precisão das horas..."
(Fernando Rozano)
domingo, 1 de novembro de 2009
DÉCIMA ELEGIA
"Só na velhice o vento não ressuscita.
A água dos olhos entra na surdez da neve
e escuta a oração do estômago, dos rins, do pulmão.
O sono desce com a marcha dos ratos no assoalho.
Tudo foi julgado e devemos durar nas escolhas.
Só na velhice os grilos denunciam o meio-dia.
O exílio é na carne.
Esmorece o esforço de conciliar a verdade com a realidade.
A neblina nos enterra vivos.
Só na velhice o pó atravessa a parede da brasa,
o riso atravessa o osso.
Deciframos a descendência do vinho.
Os segredos não são contados porque ninguém quer ouvi-los.
O lume raso do aposento é apanhado pela ave
a pousar o bule das penas na estante do mar.
Só na velhice acomodo a bagagem nos bolsos do casaco.
O suspiro é mais audível que o clamor.
Recusamos o excesso, basta uma escova e uma toalha.
Só na velhice os músculos são armas engatilhadas.
O nome passa a me carregar.
É penoso subir os andares da voz,
nos abrigamos no térreo de um assobio.
Pedimos desculpa às cadeiras e licença ao pão.
O ódio esquece sua vingança.
Amamos o que não temos.
Só na velhice digo bom-dia e recebo a resposta de noite.
Convém dispor da cautela e se despedir aos poucos.
Só na velhice quantos sofrem à toa
para narrar em detalhes seu sofrimento.
O pesadelo impõe dois turnos de trabalho.
Investigo-me a ponto de ser meu inimigo.
Sustentamos o atrito com o céu,
plagiando com as pálpebras o vôo anzolado, céreo, das borboletas.
Só na velhice há o receio em folhear edições raras
e rasgar uma página gasta do manuseio.
Embalo a espuma como um neto.
Confundimos a ordem do sinal da cruz.
O luto não é trégua e descanso, mas a pior luta.
Só na velhice a forma está na força do sopro.
Respeito Lázaro, que a custo de um milagre faleceu duas vezes.
O medo é de dormir na luz.
Lamento ter sido indiscreto com minha dor
e discreto com minha alegria.
Só na velhice a mesa fica repleta de ausências.
Chego ao fim, uma corda que aprende seu limite
após arrebentar-se em música.
Creio na cerração das manhãs.
Conforto-me em ser apenas homem.
Envelheci, tenho muita infância pela frente..."
(Fabrício Carpinejar)
A água dos olhos entra na surdez da neve
e escuta a oração do estômago, dos rins, do pulmão.
O sono desce com a marcha dos ratos no assoalho.
Tudo foi julgado e devemos durar nas escolhas.
Só na velhice os grilos denunciam o meio-dia.
O exílio é na carne.
Esmorece o esforço de conciliar a verdade com a realidade.
A neblina nos enterra vivos.
Só na velhice o pó atravessa a parede da brasa,
o riso atravessa o osso.
Deciframos a descendência do vinho.
Os segredos não são contados porque ninguém quer ouvi-los.
O lume raso do aposento é apanhado pela ave
a pousar o bule das penas na estante do mar.
Só na velhice acomodo a bagagem nos bolsos do casaco.
O suspiro é mais audível que o clamor.
Recusamos o excesso, basta uma escova e uma toalha.
Só na velhice os músculos são armas engatilhadas.
O nome passa a me carregar.
É penoso subir os andares da voz,
nos abrigamos no térreo de um assobio.
Pedimos desculpa às cadeiras e licença ao pão.
O ódio esquece sua vingança.
Amamos o que não temos.
Só na velhice digo bom-dia e recebo a resposta de noite.
Convém dispor da cautela e se despedir aos poucos.
Só na velhice quantos sofrem à toa
para narrar em detalhes seu sofrimento.
O pesadelo impõe dois turnos de trabalho.
Investigo-me a ponto de ser meu inimigo.
Sustentamos o atrito com o céu,
plagiando com as pálpebras o vôo anzolado, céreo, das borboletas.
Só na velhice há o receio em folhear edições raras
e rasgar uma página gasta do manuseio.
Embalo a espuma como um neto.
Confundimos a ordem do sinal da cruz.
O luto não é trégua e descanso, mas a pior luta.
Só na velhice a forma está na força do sopro.
Respeito Lázaro, que a custo de um milagre faleceu duas vezes.
O medo é de dormir na luz.
Lamento ter sido indiscreto com minha dor
e discreto com minha alegria.
Só na velhice a mesa fica repleta de ausências.
Chego ao fim, uma corda que aprende seu limite
após arrebentar-se em música.
Creio na cerração das manhãs.
Conforto-me em ser apenas homem.
Envelheci, tenho muita infância pela frente..."
(Fabrício Carpinejar)
UMA SACOLA VELHA DE CAMURÇA...
"Atrás da porta do armário
numa sacola de camurça ruça
deixo ficar os dias
que se recusam a virar passado
as pétalas e as cartas sem resposta
um dia se esfarelam sem aviso
mas há desejos de longa duração
amores refugados e algumas alegrias
dessas que os poetas antigos chamavam peregrinas
que não se quer esquecer...
Quem disse que só temos o presente?
ou dito de outro modo
talvez nosso presente seja exatamente
uma sacola velha de camurça..."
(Dade Amorim)
numa sacola de camurça ruça
deixo ficar os dias
que se recusam a virar passado
as pétalas e as cartas sem resposta
um dia se esfarelam sem aviso
mas há desejos de longa duração
amores refugados e algumas alegrias
dessas que os poetas antigos chamavam peregrinas
que não se quer esquecer...
Quem disse que só temos o presente?
ou dito de outro modo
talvez nosso presente seja exatamente
uma sacola velha de camurça..."
(Dade Amorim)
TEMPO TRAÇADO
NÃO CONSENTEM OS DEUSES MAIS QUE A VIDA
"Não consentem os deuses mais que a vida.
Tudo pois refusemos, que nos alce
A irrespiráveis píncaros,
Perenes sem ter flores.
Só de aceitar tenhamos a ciência,
E, enquanto bate o sangue em nossas fontes,
Nem se engelha conosco
O mesmo amor, duremos,
Como vidros, às luzes transparentes
E deixando escorrer a chuva triste,
Só mornos ao sol quente,
E refletindo um pouco..."
(Fernando Pessoa)
Tudo pois refusemos, que nos alce
A irrespiráveis píncaros,
Perenes sem ter flores.
Só de aceitar tenhamos a ciência,
E, enquanto bate o sangue em nossas fontes,
Nem se engelha conosco
O mesmo amor, duremos,
Como vidros, às luzes transparentes
E deixando escorrer a chuva triste,
Só mornos ao sol quente,
E refletindo um pouco..."
(Fernando Pessoa)
A CANÇÃO DO MENDIGO
"Vou indo de porta em porta,
ao sol e à chuva, não importa;
de repente descanso o meu ouvido direito
em minha mão direita:
minha voz me soa imperfeita,
como se nunca a tivesse ouvido.
E já nem sei quem clama em meus ais,
eu ou outra pessoa.
Eu clamo por qualquer coisa à toa.
Os poetas clamam por mais.
Com os olhos eu fecho o meu rosto
e minha mão lhe serve de encosto
de modo que ele pareça descansar.
Para que não se esqueça
que eu também tenho um posto
para pousar a cabeça..."
(Rainer Maria Rilke)
ao sol e à chuva, não importa;
de repente descanso o meu ouvido direito
em minha mão direita:
minha voz me soa imperfeita,
como se nunca a tivesse ouvido.
E já nem sei quem clama em meus ais,
eu ou outra pessoa.
Eu clamo por qualquer coisa à toa.
Os poetas clamam por mais.
Com os olhos eu fecho o meu rosto
e minha mão lhe serve de encosto
de modo que ele pareça descansar.
Para que não se esqueça
que eu também tenho um posto
para pousar a cabeça..."
(Rainer Maria Rilke)
CARTA
"Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci:
Olha, em relevo, estes sinais em mim,
não das carícias(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos,
são lembranças da vida a teu menino,
que ao sol-posto perde a sabedoria das crianças.
A falta que me fazes não é tanto à hora de dormir,
quando dizias “Deus te abençoe”,
e a noite abria em sonho.
É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo,
e que não sonho..."
(Carlos Drummond de Andrade)
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci:
Olha, em relevo, estes sinais em mim,
não das carícias(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos,
são lembranças da vida a teu menino,
que ao sol-posto perde a sabedoria das crianças.
A falta que me fazes não é tanto à hora de dormir,
quando dizias “Deus te abençoe”,
e a noite abria em sonho.
É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo,
e que não sonho..."
(Carlos Drummond de Andrade)
AS PALAVRAS ESCRITAS...
"Palavras escritas servem para eu não esquecer…
Para que serve esquecer?
Existe nelas um sentimento que dissolve,
como um solvente universal.
Uma espécie de metafísica da aniquilação,
Tem certas frases tão profundas
que se tornam simbólicas e poderosas
nos faz até sentir as ossadas e a pele.
Ambas são pele,
A corda em atrito que te diz,
não passarás e fragmenta.
Estas palavras levaram-me a abraçar a minha dor,
a dor da condição humana.
Não precisamos lutar pela igualdade,
Somos todos iguais perante a dor.
Não quero esquecer
Por deixar de dar significado à dor.
Quero ser fluxo que permeia nesta leitura.
Quero sentir algo que me faça amar
em vez de esquecer..."
Para que serve esquecer?
Existe nelas um sentimento que dissolve,
como um solvente universal.
Uma espécie de metafísica da aniquilação,
Tem certas frases tão profundas
que se tornam simbólicas e poderosas
nos faz até sentir as ossadas e a pele.
Ambas são pele,
A corda em atrito que te diz,
não passarás e fragmenta.
Estas palavras levaram-me a abraçar a minha dor,
a dor da condição humana.
Não precisamos lutar pela igualdade,
Somos todos iguais perante a dor.
Não quero esquecer
Por deixar de dar significado à dor.
Quero ser fluxo que permeia nesta leitura.
Quero sentir algo que me faça amar
em vez de esquecer..."
AGORA PARTES....
"Contaminado fui pela sua felicidade
Você amanheceu-me primavera e girassóis
Arrancou a casca do medo
Que voraz me sufocava
Você acreditou no menino
De olhos castanhos e mãos de chuva
Que o adulto em mim, ano após ano,
Lentamente assassinava.
Mas agora partes...
As ruas ficarão desertas,
Os sonhos ficarão vazios
As noites se farão eternas
E o amanhã talvez não diga
O caminho para te alcançar..."
(Douglas D.)
Você amanheceu-me primavera e girassóis
Arrancou a casca do medo
Que voraz me sufocava
Você acreditou no menino
De olhos castanhos e mãos de chuva
Que o adulto em mim, ano após ano,
Lentamente assassinava.
Mas agora partes...
As ruas ficarão desertas,
Os sonhos ficarão vazios
As noites se farão eternas
E o amanhã talvez não diga
O caminho para te alcançar..."
(Douglas D.)
EM SILÊNCIO...
"Tu me sufocas.
Tua presença é sombra
Quarto vazio que não consigo desocupar
Por isso de uma vez por todas é hora de dar um basta
Preciso de distância, de um lugar livre, da tua superfície
Você dizia com uma convicção aterradora
Enquanto eu continuava o processo de transfigurar
Qualquer sinal de emoções em paisagens habituais
Momentos já vividos, perguntas já respondidas,
Reações já sabidas...
Nada de riscos então,
Porque só assim saberia digerir a culpa
Que repetias ser apenas minha
Esquecendo que houve um instante, um gesto, um ponto
Onde a verticalidade enganosa da felicidade
Nos fez tropeçar naquilo que críamos ser amor
E que agora adoece diante de nós
Ar rarefeito que é..."
(Douglas D.)
Tua presença é sombra
Quarto vazio que não consigo desocupar
Por isso de uma vez por todas é hora de dar um basta
Preciso de distância, de um lugar livre, da tua superfície
Você dizia com uma convicção aterradora
Enquanto eu continuava o processo de transfigurar
Qualquer sinal de emoções em paisagens habituais
Momentos já vividos, perguntas já respondidas,
Reações já sabidas...
Nada de riscos então,
Porque só assim saberia digerir a culpa
Que repetias ser apenas minha
Esquecendo que houve um instante, um gesto, um ponto
Onde a verticalidade enganosa da felicidade
Nos fez tropeçar naquilo que críamos ser amor
E que agora adoece diante de nós
Ar rarefeito que é..."
(Douglas D.)
BIOGRAFIA
"Escrevo minhas formas nessa passagem do vento
sobre os ossos que ainda me sustentam.
São fragmentos antes de serem restos esquecidos,
fugidos da memória.
Sigo as palavras como as estações no passado.
Se de lá vim para ficar, primeiro;
para depois, antes de o esquecimento chegar, se tornar raiz,
não me julgues sem saber quem sou.
Conheci muito cedo o fogo e as suas cinzas,
da madeira desprendida de onde nasci.
Não retornei.
A vegetação, em súplica, perdera seus verdes e ervas.
O sol há muito havia se posto.
A noite e seus traços avançavam sem medos.
Foi quando olhei pela última vez os meus mortos.
Segui adiante com a fome e o longo caminhar como companheiros.
Os ombros começaram a curva da idade anos
depois de a maresia sair da minha pele.
Nada era inferno ou paraíso,
apenas carne que se recusava à entrega de seus músculos ao tempo.
Lembro das cidades e de cada uma das suas janelas
muitas delas coloridas, outras descascadas.
Os lençóis desenhavam no espaço o amor não resistente.
Viver nos extremos a cada palmo do dia era uma lembrança dolorida.
Por muito pouco fui julgado e sentenciado à solidão.
A única voz que escutei foi a da minha respiração,
quando a luz apagou e a tranca enferrujada cumpriu o seu destino,
o de me deixar preso dentro de mim.
Não mereci o que buscava.
O vidro cortou o céu da minha boca
enquanto os sinos da igreja badalavam sem cessar.
Ninguém ouviu os meus gritos de dor.
E eu era um mar revolto
e em minhas águas os barcos recortavam meu peito
e suas âncoras cravavam fortes em meus pulsos.
Levei séculos para chegar ao pampa.
Os campos perdiam-se do meu olhar
como uma névoa enfurecida cobre o início do inverno.
Também ali fiquei muito perto do fim.
Sabia das diferenças e dos abismos.
Ainda assim arrisquei os passos que me restavam.
As manhãs despertavam os meus pesadelos.
Há muito não sonhava mais.
Abri a última janela que vi.
A cortina cobriu meu rosto como uma mortalha.
Voltei para o fundo do meu universo.
Desisti de recomeçar.
Nunca entendestes a carta que te enviei.
A morte não me assustava.
A laje fria me acolheu em paz.
Agora sou o que atravessa as mortes.
Tudo o que desejo é reconstituir o meu passado
e reter na memória os teus olhos.
Os mesmos que um dia esperei encontrar
em meio a um texto perdido
em minha passagem por tua alma..."
(Fernando Rozano)
sobre os ossos que ainda me sustentam.
São fragmentos antes de serem restos esquecidos,
fugidos da memória.
Sigo as palavras como as estações no passado.
Se de lá vim para ficar, primeiro;
para depois, antes de o esquecimento chegar, se tornar raiz,
não me julgues sem saber quem sou.
Conheci muito cedo o fogo e as suas cinzas,
da madeira desprendida de onde nasci.
Não retornei.
A vegetação, em súplica, perdera seus verdes e ervas.
O sol há muito havia se posto.
A noite e seus traços avançavam sem medos.
Foi quando olhei pela última vez os meus mortos.
Segui adiante com a fome e o longo caminhar como companheiros.
Os ombros começaram a curva da idade anos
depois de a maresia sair da minha pele.
Nada era inferno ou paraíso,
apenas carne que se recusava à entrega de seus músculos ao tempo.
Lembro das cidades e de cada uma das suas janelas
muitas delas coloridas, outras descascadas.
Os lençóis desenhavam no espaço o amor não resistente.
Viver nos extremos a cada palmo do dia era uma lembrança dolorida.
Por muito pouco fui julgado e sentenciado à solidão.
A única voz que escutei foi a da minha respiração,
quando a luz apagou e a tranca enferrujada cumpriu o seu destino,
o de me deixar preso dentro de mim.
Não mereci o que buscava.
O vidro cortou o céu da minha boca
enquanto os sinos da igreja badalavam sem cessar.
Ninguém ouviu os meus gritos de dor.
E eu era um mar revolto
e em minhas águas os barcos recortavam meu peito
e suas âncoras cravavam fortes em meus pulsos.
Levei séculos para chegar ao pampa.
Os campos perdiam-se do meu olhar
como uma névoa enfurecida cobre o início do inverno.
Também ali fiquei muito perto do fim.
Sabia das diferenças e dos abismos.
Ainda assim arrisquei os passos que me restavam.
As manhãs despertavam os meus pesadelos.
Há muito não sonhava mais.
Abri a última janela que vi.
A cortina cobriu meu rosto como uma mortalha.
Voltei para o fundo do meu universo.
Desisti de recomeçar.
Nunca entendestes a carta que te enviei.
A morte não me assustava.
A laje fria me acolheu em paz.
Agora sou o que atravessa as mortes.
Tudo o que desejo é reconstituir o meu passado
e reter na memória os teus olhos.
Os mesmos que um dia esperei encontrar
em meio a um texto perdido
em minha passagem por tua alma..."
(Fernando Rozano)
HISTÓRIAS QUE NÃO VIVI...
"Aquarelo histórias em segredo
e porque nelas sou feliz
guardo-as numa gaveta bem pequena
(para que ao envelhecer)
meus filhos possam contá-las.
Os presságios de deus pouco importam
se ao dormir minha mãe beija-me a testa
deixando comigo seus anjos da guarda
(e eu já não temo mais)
o dia em que morrerei.
Poeto histórias que não vivi
e porque nelas serei novamente criança
aninho-as à sombra de girassóis
(para que ao morrer)
meus filhos possam sonhá-las.
A crueza de deus pouco importa
se quando a dor chegar faminta de tudo
da tristeza eu fizer rio infinito
(e assim partiremos mundo afora)
nos barquinhos de papel feitos por meu pai..."
e porque nelas sou feliz
guardo-as numa gaveta bem pequena
(para que ao envelhecer)
meus filhos possam contá-las.
Os presságios de deus pouco importam
se ao dormir minha mãe beija-me a testa
deixando comigo seus anjos da guarda
(e eu já não temo mais)
o dia em que morrerei.
Poeto histórias que não vivi
e porque nelas serei novamente criança
aninho-as à sombra de girassóis
(para que ao morrer)
meus filhos possam sonhá-las.
A crueza de deus pouco importa
se quando a dor chegar faminta de tudo
da tristeza eu fizer rio infinito
(e assim partiremos mundo afora)
nos barquinhos de papel feitos por meu pai..."
QUANDO MAMÃE MORREU...
"Mamãe morreu aos trinta e três anos
e eu ainda vivia-me infância
quando vi meus brinquedos entristecerem
porque eu não conseguiria mais brincá-los...
Mamãe morreu num abril distante
fazia uma tarde cinzenta
que logo virou chuva forte
o que alguém disse serem anjos chorando...
Mamãe morreu em silêncio
deitada em sua cama
no quarto que tanto me faz falta
pois não mais tenho um lugar chamado casa...
Mamãe morreu uma morte arrastada
que sobre ela voraz debruçou-se
sem deixá-la futuro algum
embora dissessem que deus por ela esperava...
Mamãe morreu faz tanto tempo
que sua voz de mim parece fugir
também seus olhos castanhos e tenros
nos quais menino feliz eu me via...
Mamãe morreu e eu não disse adeus.
Mamãe morreu e eu não soube chorar.
Mamãe morreu e eu enterrei tantos sonhos
e ainda hoje pergunto onde deus poderia estar..."
(Douglas D.)
e eu ainda vivia-me infância
quando vi meus brinquedos entristecerem
porque eu não conseguiria mais brincá-los...
Mamãe morreu num abril distante
fazia uma tarde cinzenta
que logo virou chuva forte
o que alguém disse serem anjos chorando...
Mamãe morreu em silêncio
deitada em sua cama
no quarto que tanto me faz falta
pois não mais tenho um lugar chamado casa...
Mamãe morreu uma morte arrastada
que sobre ela voraz debruçou-se
sem deixá-la futuro algum
embora dissessem que deus por ela esperava...
Mamãe morreu faz tanto tempo
que sua voz de mim parece fugir
também seus olhos castanhos e tenros
nos quais menino feliz eu me via...
Mamãe morreu e eu não disse adeus.
Mamãe morreu e eu não soube chorar.
Mamãe morreu e eu enterrei tantos sonhos
e ainda hoje pergunto onde deus poderia estar..."
(Douglas D.)
SEMPRE SOUBE DO MEU FIM...
"Desde o meu começo sempre soube do meu fim.
Os escuros entre um e outro, entre o nascer e o do pôr-do-sol,
enigmáticos, sempre foram minhas margens.
Rio ou mar, nascentes de água doce ou de sal,
eu sempre recebi as sombras grisalhas das nuvens,
quando a memória se transforma em noite
e nela a névoa ao amanhecer sobrevive,
como refúgio e resistente passado.
O futuro há muito se desprendeu do horizonte
e hoje é apenas uma tênue linha divisória entre os tempos.
Desde o meu começo sempre soube do meu fim,
o que nunca soube e jamais saberei
é da palavra maturada no lume da Terra
em permanente rotação no fundo de mim mesmo..."
(Fernando Rozano)
Os escuros entre um e outro, entre o nascer e o do pôr-do-sol,
enigmáticos, sempre foram minhas margens.
Rio ou mar, nascentes de água doce ou de sal,
eu sempre recebi as sombras grisalhas das nuvens,
quando a memória se transforma em noite
e nela a névoa ao amanhecer sobrevive,
como refúgio e resistente passado.
O futuro há muito se desprendeu do horizonte
e hoje é apenas uma tênue linha divisória entre os tempos.
Desde o meu começo sempre soube do meu fim,
o que nunca soube e jamais saberei
é da palavra maturada no lume da Terra
em permanente rotação no fundo de mim mesmo..."
(Fernando Rozano)
A ESTAÇÃO
"A estação não atrai mais os pássaros.
As luzes apagadas apenas recebem o sol da manhã.
As telhas descansam seus vincos tingidos pelo sereno.
Deixam vazar um ou outro pequeno vão
por onde é lapidada a lembrança.
Há muito a pele da madeira e os seus feixes estavam secos.
Todo o dia ali era noite.
Não a vemos como os velhos a vêem em suas memórias,
hoje procurando refúgio.
Elas nunca mais estarão abertas como antes,
estão misturadas como retalhos tecidos à mão.
Mas, sempre há um nervo que se abre
e deixa fugir um pedaço da alma.
Depois, retorna às pressas
com medo do horizonte tenso e em brasa do lado de fora.
O que era turvo aos olhos torna−se mais turvo
sobre as linhas refletidas na água dos córregos,
margeando o verde desse silêncio.
A estação não atrai mais do que relâmpagos e temporais.
Depois, passam, deixam rastros,
ferrugens e cicatrizes azuladas como as veias
que recortavam os braços do último maquinista.
Ali, o trem parou, e o tempo seguiu seu destino.
A mudez das sombras, coberta de cinzas,
fundiu−se com os trilhos e os dormentes.
Não há mais como voltar.
O esquecimento é apenas um território
cujo mistério nasceu quando caiu o último letreiro de viagem
com as histórias de muitas vidas..."
(Fernando Rozano)
As luzes apagadas apenas recebem o sol da manhã.
As telhas descansam seus vincos tingidos pelo sereno.
Deixam vazar um ou outro pequeno vão
por onde é lapidada a lembrança.
Há muito a pele da madeira e os seus feixes estavam secos.
Todo o dia ali era noite.
Não a vemos como os velhos a vêem em suas memórias,
hoje procurando refúgio.
Elas nunca mais estarão abertas como antes,
estão misturadas como retalhos tecidos à mão.
Mas, sempre há um nervo que se abre
e deixa fugir um pedaço da alma.
Depois, retorna às pressas
com medo do horizonte tenso e em brasa do lado de fora.
O que era turvo aos olhos torna−se mais turvo
sobre as linhas refletidas na água dos córregos,
margeando o verde desse silêncio.
A estação não atrai mais do que relâmpagos e temporais.
Depois, passam, deixam rastros,
ferrugens e cicatrizes azuladas como as veias
que recortavam os braços do último maquinista.
Ali, o trem parou, e o tempo seguiu seu destino.
A mudez das sombras, coberta de cinzas,
fundiu−se com os trilhos e os dormentes.
Não há mais como voltar.
O esquecimento é apenas um território
cujo mistério nasceu quando caiu o último letreiro de viagem
com as histórias de muitas vidas..."
(Fernando Rozano)
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