terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

DESPERTA-ME O TEU DESEJO

"Desperta-me de noite o teu desejo
na vaga dos teus dedos com que vergas
o sono em que me deito
É rede a tua língua em sua teia
é vício as palavras com que falas
A trégua a entrega o disfarce
E lembras os meus ombros docemente
na dobra do lençol que desfazes
Desperta-me de noite com o teu corpo
tiras-me do sono onde resvalo
E eu pouco a pouco vou repelindo a noite
e tu dentro de mim vais descobrindo vales."
(Maria Tereza Horta)

MAIS UMA CURVA DO RIO

"Quando pensei que tinha chegado
era outra surpresa,
era mais uma curva no rio.
Quando calculei que tudo estava pago
havia ainda os juros
do tempo do esforço do amor.
Quando achei que estava acabado
os caminhos se espalmaram
como dedos da mão de um deus,
na torrente no vento
no sopro do universo..."
(Lya Luft)

O QUE ALIMENTA A VIDA...

"Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela e seu avesso ardente.
Do mesmo modo que da alegria foste ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras nem desculpas
e em tua carne vaporize toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta..."
(Ferreira Gullar)

UM SONHO BOM DENTRO DE NÓS

"Fazer o céu,
com pouco a gente faz
Basta uma estrela
Uma estrela e nada mais
Pra ter nas mãos o mundo
Basta uma ilusão
Um grão de areia
É o mundo em nossa mão
Sonhar é dar à vida nova cor
Dar gosto bom às lágrimas de dor
O sol pode apagar,
o mar perder a voz
Mas nunca morre
um sonho bom dentro de nós..."
(Mario Lago)

UMA ORAÇÃO...

"Alivia a minha alma,
faze com que eu sinta
que tua mão está dada à minha,
faze com que eu sinta
que a morte não existe
porque na verdade já estamos na eternidade,
faze com que eu sinta que amar é não morrer,
que a entrega de si mesmo não significa a morte,
faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária,
faze com que eu não te indague demais,
porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta,
faze com que me lembre de que também não há explicação,
porque um filho quer o beijo de sua mãe ,
e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito,
faze com que eu receba o mundo sem receio,
pois para esse mundo incompreensível
eu fui criada e eu mesma também incompreensível,
então é que há uma conexão
entre esse mistério do mundo e o nosso,
mas essa conexão não é clara para nós
enquanto quisermos entendê-la,
abençoa-me para eu viva com alegria
o pão que eu como, o sono que durmo,
faze com que eu tenha caridade por mim mesma,
pois senão não poderei sentir que Deus me amou,
faze com que eu perca o pudor
de desejar que na hora de minha morte,
haja uma mão humana amada
para apertar a minha,
amém."
(Clarice Lispector)

MORO NA POSSIBILIDADE

"Moro na possibilidade
Casa mais bela que a prosa,
Com muito mais janelas
E bem melhor, pelas portas
De aposentos inacessíveis
Como são, para o olhar, os cedros,
E tendo por forro perene
Os telhados do céu.
Visitantes, só os melhores;
Por ocupação, só isto:
Abrir amplamente minhas mãos estreitas
Para agarrar o paraíso..."
(Emily Dickinson)

ASSOMBRO

"A vida inteira busquei
Explicações e deciframentos:
Encontrei silêncio e segredo,
às vezes o conforto de um ombro,
outras vezes dor.
No último lapso
de um tempo sem limites
- embora a gente o queira compor
em fragmentos -,
abriram-se as águas
e entrei onde sempre estivera.
Tudo compreendido e absolvido,
absorta eu me tornei
luz sem sombra: assombro..."
(Lya Luft)

NA RIBEIRA DESSE RIO

"Na ribeira deste rio
Ou na ribeira daquele
Passam meus dias a fio
Nada me impede, me impele
Me dá calor ou dá frio

Vou vivendo o que o rio faz
Quando o rio não faz nada
Vejo os rastros que ele traz
Numa seqüência arrastada
Do que ficou para trás

Vou vendo e vou meditando
Não bem no rio que passa
Mas só no que estou pensando
Porque o bem dele é que faça
Eu não ver que vai passando

Vou na ribeira do rio
Que está aqui ou ali
E do seu curso me fio
Porque se o vi ou não vi
Ele passa e eu confio

Ele passa e eu confio..."

(Fernando Pessoa)

SOU INQUIETA

"Sou inquieta, áspera
E desesperançada
Embora amor dentro de mim eu tenha
Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranha feito farpa
Se tanto amor dentro de mim
Eu tenho,
mas no entanto continuo inquieta
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais.
Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamente o inesperado
Mas eu sei
Que vou ter paz antes da morte
Que vou experimentar um dia
O delicado da vida
Vou aprender
Como se come e vive
O gosto da comida..."
(Clarice Lispector)

CONTIGO APRENDI

"Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio
e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta..."
(Thiago de Mello)

NÃO ESCREVO O QUE SOU

Não. Não escrevo o que sou.
Escrevo o que não sou.
Sou pedra. Escrevo pássaro.
Sou tristeza. Escrevo alegria.
A poesia é sempre o reverso das coisas.
Não se trata de mentira.
É que nós somos corpos dilacerados
– “oh, pedaço arrancado de mim!”
O corpo é o lugar onde moram
as coisas amadas que nos foram tomadas,
presença de ausências, daí a saudade,
que é quando o corpo não está onde está...
O poeta escreve para invocar essa coisa ausente.
Toda poesia é um ato de feitiçaria
cujo objetivo é tornar presente e real
aquilo que está ausente e não tem realidade..."
(Rubem Alves)

SER COMO UM RIO...

"Ser como um rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranqüilas."
(Manuel Bandeira)

REBAIXEMOS O AMOR

"As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar
que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria
se tornam, absoluta,
numa outra -maior- realidade.
Começam a esmaecer
quando nos cansamos,
e todos nos cansamos,
por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos
que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser
e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor
ao estado de utilidade.
Do sonho do eterno
fica esse gozo acre
na boca ou na mente,
sei lá, talvez no ar..."
(Carlos Drummond de Andrade)

A ARTE DE TE SER FIEL

"Se vens, perco a razão
E digo o que não quero.
Se não vens, desespero
E gasto o coração a desejar-te.
Ah, como é difícil a arte
De te ser fiel!
E como é cruel a tua tirania!
Noite e dia pregado
A um madeiro sagrado de amargura.
Duramente sujeito,
Ou então contrafeito
Na minha liberdade sem loucura..."
(Miguel Torga)

O PRESENTE É IMUTÁVEL

"Nós vos pedimos com insistência:
Não digam nunca: “Isso é natural!”
Diante dos acontecimentos de cada dia
Numa época em que reina a confusão
Em que corre sangue
Em que o arbitrário tem força de lei
Em que a humanidade se desumaniza,
Não diga nunca: “Isso é natural!”
Para que nada passe a ser imutável!"
(Bertolt Brecht)