sábado, 8 de maio de 2010

É PRECISO NÃO ESQUECER NADA

"É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer
de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz,
o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer
é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser
como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco,
pois o resto não nos pertence..."
(Cecília Meireles)

TÔ FELIZ...

"Porque todo mundo precisa
querer se suicidar uma vez ao dia?
Todo santo dia
Queria dizer tanta coisa hoje, com muita vontade,
mas está sendo um pouco estranho até difícil.
Algumas coisas estão mudando aqui dentro,
não como eu queria que tivesse sido, mas vá lá...
Já me aceito como sou, estou aprendendo,
acho q é a idade e olha que nem é tanta assim !
É uma sensação boa, que me leva pra dentro,
uma calmaria que emociona
O tempo passou e tudo ficou como estava,
ou como deveria ser.
Ou como dava pra ser, no momento.
E consigo ouvir música novamente.
A mesma trilha sonora que um dia me atraiu
à beira de um precipício,
mas o vento nunca soprou forte o suficiente
para que eu perdesse o equilíbrio.
Embora eu não visse a hora de pular..."
(Vanessa M.)

NÃO ME FALES DO TEMPO

"Não me perguntes do tempo.
Este que me escapa por entre os dedos
que foge levando o sabor da fruta doce
que se desmancha como nuvens em sonhos.
Não me fales do tempo.
A espera dos novos dias me assusta,
me parte em pedaços, faz de mim espuma.
Esqueças do tempo.
Ele é tudo o que foge
e o que deixa de ser sendo..."
(Vanessa M.)

terça-feira, 4 de maio de 2010

A CURIOSIDADE NÃO MATA

"É tão longo e sinuoso esse caminho.
Não procuro atalho, sigo buscando completá-lo
com tudo que realmente o da beleza suficiente,
não para dizer que é mais belo que o dos outros,
mas para que aqueles olhares curiosos
sintam vontade de fazer o seu próprio caminho,
para que o cuide e faça o melhor possível!
Ah, o objetivo...
Tão simples: chegar no horizonte de um fim
e admirar todas as paisagens
que fizeram parte dessa longa estrada,
saber que não importa o quão longa ela é,
nem quantas barreiras tive que transpor,
mas que cheguei com o mesmo sorriso que começei,
talvez um pouco cansado, porém satisfeito.
Afinal, todo começo tem um fim;
o que tem no meio dessas duas pontas?
A curiosidade não mata, enriquece..."
(Murilo Girotto)

SIGO SEM MEDO

"Jamais tive medo de fazer as minhas escolhas,
jamais tive medo de errar, sei que por um tempo,
é posso dizer que por um curto tempo
poderei até quem sabe chorar...
Mas e daí eu também não tenho medo de chorar,
jamais tive...
Então sei que tudo passa tudo se cura,
até as piores feridas...
Seguirei meu caminho em busca dos meus ideais,
quebrando a minha cara, consertando os meus erros,
mas sigo em frente, sem olhar pra trás.
As lembranças virão
então fecharei os meus olhos e só irei sentir pena,
mas não por mim e sim por você.
Que não foi capaz de enxergar o óbvio.
Porque mesmo com todos os erros que cometi,
todos eles foram pra você perceber o quanto te quis,
mas você não deu valor, não esteve nem aí,
mas não ficarei aqui esperando algo incerto,
decidi que não quero mais te ver,
não quero mais saber de você,
que você seja tão feliz quanto eu serei,
mas você vai sentir falta que eu sei,
em algum momento que eu lhe vier na memória
a saudade vai bater,
mas a mim você jamais terá novamente..."
(Fernanda Chamas)

MEU ROTEIRO DE VIDA

"Sigo a vida conforme o roteiro,
sou quase normal por fora,
Pode acreditar!
Mas por dentro , sou fogo que arde !
Não quero uma vida fútil ,
um amor pequeno, um alegria curta!
Eu quero mais que isso...
Quero o que não vejo.
Quero o que não entendo.
Quero muito e quero sem fim.
Não cresci pra viver mais ou menos,
nasci com dois pares de asas,
vou aonde eu me levar.
Por isso,
não me venha com superfícies,
nada raso me satisfaz.
Eu quero é o mergulho.
Entrar de roupa e tudo
no infinito que é a vida.
E rezar – se ainda acreditar –
pra sair ainda bem melhor
do outro lado de lá..."
(Fernanda Mello)

VERSO FRATURADO

"Encontrei um verso fraturado,
caído na esquina da rua do lado,
Tinha se perdido de um coração saudoso
que passava por ali, desiludido.
Coloquei-o de pé, emendei seus pedaços,
refiz suas linhas, retoquei seus traços.
Afaguei suas dores como se fossem minhas.
Agora, novamente estruturado,
espero que ele não olhe para trás
e não misture sonhos
com amargas falências do passado;
que saiba enfeitar a estrela lá na frente
com fartos laços de rima colorida,
pois é para o futuro que caminham
todos os passos apressados desta vida..."
(Flora Figueiredo)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

DAS VARANDAS DA NOSSA ALMA

"Nossas asas não são tão precárias
que tenhamos de voar junto ao chão
ou apenas arrastar nosso peso.
Nem somos tão covardes que não possamos
botar a cabeça fora do casulo e espiar:
quem sabe no tempo do qual fugimos
nos aguarde, querendo ser colhido,
algo chamado futuro, confiança, projeto, vida.
Ainda que a gente nem perceba,
tudo é avanço e transformação,
acúmulo de experiência,
dores do parto de nós mesmos, cada dia refeito.
Somos melhores do que imaginamos ser.
Que no espelho posto à nossa frente na hora de nascer
a gente no fim tenha projetado mais do que um vazio,
um nada, uma frustração: um rosto pleno,
talvez toda uma paisagem
vista das varandas da nossa alma..."
(Lya Luft)

domingo, 2 de maio de 2010

CASA SUSPEITA

"Talvez eu quisesse ser teu lado mais bonito
a parte da tua história mais repleta, plena
a coisa certa
de uma forma tão serena, tão doce
mas que ao mesmo tempo fosse
selvagem e obscena, violenta até.
Que o ódio está sempre contido na paixão
e se eu tenho uma paz toda que me enfeita
trago uma casa suspeita dentro do coração...
Trago um crime que cometi ou que vou cometer
e jogo contra mim, jogo contra você
vivo do perigo de te fazer enlouquecer
no eterno dilema de ser e não ser
ando na beira do que pode acontecer
e morro de medo de te perder..."
(Bruna Lombardi)

MINHA ÚLTIMA CARTA PARA VOCÊ

"Eu sempre sonhei com um grande amor
alguém pra ficar ao meu lado,
ser meu amigo e companheiro...
o tempo passou, pensei que era você
mas isso só me fez sofrer
porque tudo era apenas ilusão.
Então eu resolvi acordar para a vida
eu não sou obrigada a me sacrificar
por alguém que não me quer...
tenho que ser mais forte,
Eu sei que nunca fomos de fato namorados
e tão pouco amigos de verdade,
nossa relação se restringiu a papel e caneta
eu escrevia o que sentia e te entregava, sem medo,
porque do amor eu não posso ter medo.
Hoje parece que por falta de atitude
talvez das duas partes, posso sim
dizer a verdade e que tudo aquilo
que eu sentia antes por você
não era verdadeiro pois acabou, foi finito.
Já em você eu não sei o que se passa
só sei que você leu o que eu sentia
e não me deu crédito e isso me fez cansar sabe,
eu sempre pensei que quando a gente ama
a gente cuida do que é nosso
mas eu tentei cuidar de você e descobri
que você nunca foi meu
assim como eu nunca fui sua.
É triste admitir que a pessoa que a gente ama
não nos corresponde...
Por incrível que pareça eu quero te agradecer
por esse humilde desprezo, isso me fez crescer.
O interessante é que eu não guardo mágoa,
muito menos estou triste por isso
você me ensinou muito mais
do que os conceitos da biologia,
você me ensinou o que eu precisava aprender
mesmo sem ter mencionado uma só palavra.
É incrível mas você me libertou
daquilo que me prendia a você
é por isso que resolvi escrever essa carta
hoje pra te agradescer e dizer
que continuo gostando de você,
mas agora de uma maneira diferente
agora eu não te amo mais!"
(Pollyana da Nóbrega Mendes)

sábado, 1 de maio de 2010

OS CIÚMES QUE TENHO

"Tenho ciúmes, nem imaginas os ciúmes que tenho,
queria que fossem só meus, esses fiapos de atenção
que distribuis pelos outros em rateio ao longo do dia.
Tenho ciúmes da mulher com que te cruzas na rua pela manhã,
que passa apressada e sombria sem te atentar no perfume.
Tenho ciúmes da vizinha que partilha contigo
o metro quadrado do elevador, respirando ambos o mesmo ar;
da tua secretária, que chega por trás
e se debruça perigosamente sobre essa nuca que é minha,
para te mostrar um documento qualquer;
e da empregada do restaurante, que recebe o teu pedido,
sugerindo-te as especialidades do dia,
e a quem sorris alheio enquanto encomendas
o melhor vinho da lista para impressionares
quem se senta ao teu lado.
Tenho ciúmes de quem se senta ao teu lado
e usufrui de toda a tua atenção;
e da loura que vai no trânsito,
a quem dás prioridade e deixas passar à frente
com um aceno de cabeça e um olhar de raspão,
desfocado mas atrevido.
Tenho ciúmes da rapariga da bomba onde enches o depósito,
a quem pedes um maço de cigarros e por quem aguardas
enquanto conta os trocos com dificuldade;
da hospedeira que te serve o bloody mary
mal o avião levanta vôo,
e das que olham para ti na rua
e te prescrutam o dedo anelar,
tentando perceber se és casado,
se estás disponível ou se ambas as coisas.
Tenho ciúmes das que têm coragem para te abordar
de rompante num bar e te beijam na boca
como se fosses delas -e por momentos até és-,
te arrastam para um quarto,
te viram do avesso e te deixam;
das vendedeiras da praça que te tratam por menino
com impudência desabrida;
e da doutora da farmácia onde avias as receitas,
do tempo que demoras ao balcão, fazendo conversa,
conferindo dosagens, pedindo recibos.
Tenho ciúmes da velhota da pastelaria
que te conhece há anos e que te tremelica
uns bons dias com familiaridade deslocada;
e da advogada canina com quem te reunes amiúde,
convencido de que a lei te vai resolver
toda essa vida sem mim.
Tenho ciúmes da tua mulher,
da indiferença que lhe votas quando chegas a casa,
das conversas geladas sobre domesticidades
-qualquer coisa me servia agora-;
e tenho ciúmes da tua empregada,
que espaneja e arruma os restos de ti
que sobram pela casa quando não estás,
recolhendo em sacos de aspirador os teus cheiros
e essa tristeza que deixas depositados nos cantos.
Tenho ciúmes, nem imaginas os ciúmes que tenho."
(Sofia Vieira)

A ÚLTIMA PARAGEM

"Preciso que estejas aqui e me salves dos fantasmas
que atacam em bando aos primeiros alvores do dia.
Espanta-os. Redime-me de alguma forma,
como se me absolvesses em confissão,
ou como um pai que perdoasse
os desmandos do filho pródigo.
Eu não sou só eu: sou também isto,
este excesso de bagagem que dá multa,
os gritos que não ouves quando falo muito,
quando falo demais, com o intuito nervoso
de espantar o bando de corvos que me cerca
e me enegrece em voos rasantes de agoiro.
Tenho sempre medo a esta hora da madrugada:
sinto-me fraca, na vazante, no soçobro, um fio de gente,
um engano cósmico qualquer.
Os primeiros autocarros aceleram pela rua ainda vazia,
esforçando os motores barulhentos,
a televisão repete séries e concursos requentados
e há uma preocupação indefinida que paira no ar,
como quando tememos que um filho adoeça
por ouvirmo-lo tossir no quarto.
Já a culpa, essa, é uma luz acesa no meio da sala,
que me incandesce e me cega.
Há coisas que não te contei
só porque não as quiseste saber, mas isto,
ao menos, regista para memória futura:
quando não estamos juntos, forças adversas aproveitam
o eu estar sozinha para me acoitarem à covardia,
no silêncio do dia que nasce, indiferente.
Vêm lestas, como os autocarros na rua,
e eu sou a sua última paragem..."
(Sofia Vieira)

NÓS QUE NÃO SOMOS NATURAIS

"Nós que não somos naturais,
porque somos quem nega a natureza,
não morreremos nunca de animais a morte.
Essa morte primeva, com que acabam
os que jamais souberam que viviam,
não nos pertence desde a hora em que
de humanidade nos fizemos homens
e ao sofrimento abrimos esta carne
embebendo-a do amor que não devera ser
mais que o cio do prazer sem nome
e sem memória alguma.
Nunca mais havemos de morrer em paz
e espanto de se acabar o mundo
e não nós nele.
O que nos mata é a solidão povoada..."
(Jorge de Sena)

PÁSSAROS DE VAPOR

"Tenho que bater com a porta
e sair a correr
atirar-me para a erva a chorar
esperar o consolo do meu cão
que me procura a cara
com o focinho quente
ou atirar-me para a cama
a chorar e molhar a almofada
as lágrimas descem
pelo canto dos olhos
como os rios desviados
são salgadas
da mesma água do mar
quando está calmo e só
de tarde
gosto de chorar
em frente dos homens
para que me abracem
ou me vejam
no meu momento
de máxima beleza
com essas pérolas
rolando pela cara
como se eu fosse
de cristal ou de água
dos chuviscos
desculpem-me
como atrás
dos chuviscos
no espelho da casa de banho
às vezes
ponho gotas de água
lágrimas falsas
que deixo cair
da ponta dos meus dedos
às vezes dou-me beijos no espelho
e ficam marcados os lábios
como pássaros de vapor..."
(Roberta Iannamico)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

ASSOMBROS

"Às vezes,
pequenos grandes terremotos ocorrem
do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata
rolam alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos já me viram
remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro..."
(Affonso Romano de Sant'Anna)