sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O QUE ME TRAZ O TEMPO

"Hoje, não mais me iludem as ondas desse mar verde-azulado.
Precavido, prefiro a segurança de contemplá-las à distância
pois bem sei da sedução e da magia que exercem sobre mim.
Assim, contento-me em sabê-las ali no constante vai e vem
lambendo os pés de outros pobres seres distraídos
que ainda não se sabem seus cativos.
Entretanto, eu,
não mais me deixo arrastar pelas marés como outrora,
qual folha desgarrada da árvore lançada à sorte pelo vento.
Já não me envolve como antes o barulho de tuas águas
quando zombeteiras lançam-se no rochedo,
nem me preocupa a força de tuas ressacas.
Confesso! nem mesmo sinto aquele desejo insano
de beber todo teu azul na esperança vã de matar minha sede.
Não me incomodam mais os pescadores
a lançar sobre ti as redes,
tampouco me hipnotizam os raios de sol no entardecer
quando devagar adentram tuas águas
e se entregam lânguidos aos teus braços.
Agora nem o clarão da lua cheia
que te enche de mistérios me faz perder o prumo.
Bem ancorado em tuas praias,
não mais serei barco à deriva a mercê de teu fascínio
me apontando o rumo
até que no horizonte infindo eu desapareça.
Mas cuido carinhosamente de teu leito
para que possas descansar em paz
nos braços de quem te mereça."
(José Maria Alves Nunes)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A LUA LÁ FORA...

"Lá fora há uma lua encoberta pelo véu das águas;
uma claridade melancólica enche os céus
enquanto ouço o silencio da noite,
o silêncio de todas as coisas, o meu silêncio, o teu silêncio...
Quantas palavras são ditas em silêncio?
Quantas declarações de amor, de guerra
ou de adeus são feitas em silêncio?
Silêncio solene como esse que se instaurou agora...
Silêncio disfarçado em palavras,
palavras vazias, perdidas no tempo, no espaço,
no seu mais profundo significado... apenas palavras!
Uma música doce e forte semelhante em muito a tua voz,
preenche os vazios do Universo,
os caminhos da lua, essa mulher misteriosa e só,
admirada, cobiçada mas só...
A Lua é um pouco como você que chegou de repente,
invadiu tudo, encheu de beleza e cor
um espaço triste quase morto e quando podia,
enfim, desfrutar de sua criação começa a sair devagarzinho...
Mas, olha, a lua nunca diz que já vai ou que o dia está nascendo:
Você olha e olha e parece que ela ainda está ali,
e você vai olhando e a lua dentro dos seus olhos
lhe deixa impressão que não se foi;
você pisca e nesse átimo surgiu o sol
e ninguém nem sabe como a lua desapareceu!
É uma forma elegante de dizer Adeus,
é uma forma dolorida de sentir o adeus
porque fica tudo pairando no ar :
Já é dia mas parece que ainda há tempo para a madrugada;
você já foi, mas ainda diz que não
e eu tonto quero sim acreditar
que a cotovia ainda não cantou..."

PIRATA

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo...

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

DECLARAÇÃO

"Declaro-me pouco,
sempre silencio.
Faço ir e vir o caminho
onde me teço.
A minha voz nunca é clara.
Ao destino que traço, pago o preço.
O meu grito é raro.
Não declaro o que digo.
Quando calo, me anuncio.
Permaneço no retorno,
negando meu passo na partida.
Por não ver o tempo e o espaço,
faço do fim meu começo..."
(Conceição Bentes)

A GENTE SE ACOSTUMA...

"Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.
A gente se acostuma
a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista,
logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora,
logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas,
logo se acostuma a acender mais cedo a luz.
E porque à medida que se acostuma,
esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro
e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma à poluição,
à lenta morte dos rios.
E se acostuma a não ouvir passarinhos,
a não colher frutas do pé,
a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber,
vai afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio,
a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada,
a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro,
a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer,
a gente vai dormir cedo
e ainda satisfeito porque tem sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza,
para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos,
para esquivar-se da faca e da baioneta,
para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta,
e que, de tanto acostumar,
se perde de si mesma..."
(Marina Colassanti)

O DESAPARECIDO

"Tarde fria, e então eu me sinto
um daqueles velhos poetas de antigamente
que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria,
e então eu sinto uma saudade muito grande,
uma saudade de noivo,
e penso em ti devagar, bem devagar,
com um bem-querer tão certo e limpo,
tão fundo e bom que parece
que estou te embalando dentro de mim.
Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas,
bobagens para todo mundo me achar ridículo
num dia sem assunto, uma crônica de rapaz;
e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz,
apenas um menino,
com o amor teimoso de um menino,
o amor burro e comprido de um menino lírico.
Olho-me no espelho e percebo
que estou envelhecendo rápida e definitivamente;
a minha imagem vai-se apagando,
vou ficando menos nítido,
estou parecendo um desses clichês
sempre feitos com fotografias antigas
que os jornais publicam de um desaparecido
que a família procura em vão.
Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida,
inútil foto se publica num canto
de uma página interior de jornal,
eu sou o irreconhecível,
irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca,
mas só tu sabes que em alguma distante esquina
de uma não lembrada cidade
estará de pé um homem perplexo, pensando em ti,
pensando teimosamente,
docemente em ti, meu amor..."
(Rubem Braga)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

PEQUENO TRATADO SOBRE A MORTALIDADE DO AMOR

"Todos os dias morre um amor.
Quase nunca percebemos, mas todos os dias morre um amor.
Às vezes de forma lenta e gradativa,
quase indolor, após anos e anos de rotina.
Morre em uma cama de motel
ou em frente à televisão de domingo.
Morre sem beijo antes de dormir, sem mãos dadas,
sem olhares compreensivos, com gosto de lágrima nos lábios.
Morre depois de telefonemas cada vez mais espaçados,
cartas cada vez mais concisas,
beijos que esfriam aos poucos.
Morre da mais completa e letal inanição.
Todos os dias morre um amor.
Às vezes com uma explosão, quase sempre com um suspiro.
Todos os dias morre um amor,
embora nós, românticos mais na teoria do que na prática,
relutemos em admitir.
Porque nada é mais dolorido do que a constatação de um fracasso.
De saber que, mais uma vez, um amor morreu.
Porque, por mais que não queiramos aprender,
a vida sempre nos ensina alguma coisa.
E esta é a lição: amores morrem.
Todos os dias um amor é assassinado.
Com a adaga do tédio, a cicuta da indiferença,
a forca do escárnio, a metralhadora da traição.
A sacola de presentes devolvidos,
os ponteiros tiquetaqueando no relógio,
o silêncio ensurdecedor depois de uma discussão:
todo crime deixa evidências.
Todos nós fomos assassinos um dia.
Há aqueles que preferem se esconder debaixo da cama,
ao lado do bicho-papão.
Outros confessam sua culpa em altos brados,
fazendo de pinico os ouvidos de infelizes garçons.
Há aqueles que negam, veementemente, participação no crime,
e buscam por novas vítimas
em salas de chat ou pistas de danceteria, sem dor ou remorso.
Os mais periculosos aproveitam sua experiência
difundindo ao mundo ilusões fatais aos corações sem cicatrizes.
Existem os amores que clamam por um tiro de misericórdia:
corcéis feridos.
Existem os amores-zumbis,
aqueles que se recusam a admitir que morreram.
São capazes de perdurar anos, mortos-vivos sobre a Terra
teimando em resistir à base de camas separadas,
beijos burocráticos, sexo sem tesão.
Estes não querem ser sacrificados,
e se alimentam de cérebros humanos,
definhando paulatinamente até se tornarem laranjas chupadas.
Existem os amores-vegetais,
aqueles que vivem em permanente estado de letargia,
comuns principalmente entre os amantes platônicos,
mas titubeio em dizer que isso possa ser classificado como amor,
pois amor vivido só do pescoço pra cima não é amor.
Existem, por fim, os amores-fênix.
Aqueles que, apesar da luta diária pela sobrevivência,
das contas a pagar, da paixão que escasseia com o decorrer dos anos,
da TV ligada na mesa-redonda ao final do domingo,
das calcinhas penduradas no chuveiro
e das brigas que não levam a nada,
ressuscitam das cinzas a cada fim de dia
e perduram - teimosos, e belos, e cegos, e intensos.
Mas estes são raríssimos, e há quem duvide de sua existência.
Alguns os chamam de amores-unicórnio,
porque são de uma beleza tão pura e rara
que jamais poderiam ter existido, a não ser como lendas.
Mas não quero acreditar nisso..."
(Alexandre Inagaki)

O AMOR MADURO

"O amor maduro não é menor em intensidade.
Ele é apenas silencioso.
Não é menor em extensão.
É mais definido colorido e poetizado.
Não carece de demonstrações.
Presenteia com a verdade do sentimento.
Não precisa de presenças exigidas.
Amplia-se com as ausências significativas.
O amor maduro tem e quer problemas, sim, como tudo.
Mas vive dos problemas da felicidade,
Que são formas trabalhosas de construir o bem, o prazer.
Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.
Na felicidade está o encontro de peles,
o ficar com o gosto da boca e do cheiro do outro
- está a compreensão antecipada, a adivinhação,
o presente de valor interior, a emoção vivida em conjunto,
os discursos silenciosos da percepção, o prazer de conviver,
o equilíbrio de carne e de espírito.
O amor maduro é a valorização do melhor do outro
e a relação com a parte salva de cada pessoa.
Ele vive do que não morreu,
mesmo tendo ficado para depois,
vive do que fermentou
criando dimensões novas para sentimentos antigos,
jardins abandonados, cheios de sementes.
Ele não pede, tem.
Não reivindica, consegue.
Não percebe, recebe.
Não exige, oferece.
Não pergunta, adivinha.
Existe, para fazer feliz."
(Artur da Távola )

O QUE É O AMOR?

"Quem nunca amou,
pode achar que sabe mas não sabe.
Amor é único, não parece com nada.
O que mais se parece com amor deve ser chocolate.
Quando agente tem vontade de comer chocolate
não serve mais nada. Só chocolate mesmo.
É uma coisa em si.
No fundo, todo mundo que vive em desamor,
de forma pontual ou em longas doses
ao longo dos anos, vai ficando amargo.
Depois azedo. Depois, podre.
As pessoas ruins, ácidas, infelizes,
que não sentem prazer,
vivem anestesiadas.
São sempre as mais ranzinzas,
as mais chatas, as que alfinetam,
as que ferroam sem parar.
Não são rompantes normais da ira,
é um azedume que contamina tudo,
uma humidade triste de quem vive sem luz,
onde o bolor diário da inveja cresce.
É triste, isto.
Gente que vive embolorada por dentro,
por falta de amor e sol.
Lamento por todas elas.
Porque se elas se lançassem ao amor,
mudariam num instante..."
(Rosana Hermann)

O INSTANTE...

O próximo instante é feito por mim?
Ou se faz sozinho?
Fazemo-lo juntos com a respiração.
E com uma desenvoltura de toureiro de arena.
Eu te digo: estou tentando
captar a quarta dimensão do instante
- já que de tão fugidio não é mais
porque agora tomou-se um novo instante-
já que também não é mais.
Cada coisa tem um instante em que ela é.
Quero apossar-me do é da coisa.
Esses instantes que decorrem no ar que respiro:
em fogos de artifício eles espoucam mudos no espaço.
Quero possuir os átomos do tempo.
E quero capturar o presente
que pela sua própria natureza me é interdito:
o presente me foge,
a atualidade sou eu sempre no já..."
(Clarice Lispector)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

MAIS UMA BALADA DO AMOR INABALADO

"Para ela todos os homens eram bons,
alguns nem sabiam quanto de bondade havia neles
e se escondiam em sua própria sombra.
Para ela alguns homens eram mais do que podiam ser.
Ouviram a vida inteira que homem não chora
e passaram a vida enxugando lágrimas
em travesseiros embolorados,
engolindo soluços contidos na garganta
e guardando suas emoções em sorrisos amarelos.
Para ela os homens falavam linguagens diferentes.
Ás vezes rudes, outras vezes polidas,
mas no íntimo com tamanha simplicidade
que se tornava incompreensível aos ouvidos de mulheres
tão cheias de senões e porquês.
Para ela todo homem lavava o rosto pela manhã
com uma dose de coragem,
mascarada em uma espuma de barbear,
necessária para desempenhar o papel
que a sociedade lhe cobra a cada momento...
Para ela todo homem buscava a mulher única,
que lhe bastasse por toda uma vida,
em vão batendo de porta em porta,
tremendo a cada encontro,
procurando desesperadamente
e morrendo de medo de nunca encontrar.
Para ela todo homem era um desafio.
Seu olhar um convite para um debate,
onde não existem perdedores,
que dia após dia se descobrem e se misturam,
até não saberem onde começa e onde termina alguém.
E toda mulher que já tenha encontrado um,
sabe do que estou falando....
Daquele dia em diante,
olhará para os homens com o olhar crédulo
e um sorriso no rosto.
E em seu coração tocará sim uma balada,
mas de amor inabalável..."

SOBRE A SOLIDÃO...

"Dei-te a solidão do dia inteiro.
Inventei a dança para me disfarçar
Na praia deserta,
brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante
às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
Rompesse o nevoeiro.
Todo o milagre, toda a maravilha
Torna mais funda a minha solidão.
E todo o esplendor p'ra mim é vão,
Pois não sou perfeição nem maravilha..."
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

EU POSSO ESPERAR....

"Simplesmente posso esperar
Aqui por você, uma eternidade
Uma tarde inteira
Simplesmente posso encontrar
Qualquer distração, ruas da cidade
Restos de uma feira
Tomo um atalho no lago
Só pra te perder
Enquanto olho os aviões
Nada tremeu no ar
Não vi nem um sinal
Mesmo assim eu posso esperar
Simplesmente posso esquecer
Da guerra ou da eternidade, uma tarde inteira
Calmamente posso contar
As nuvens no céu
Rostos na vidraça, flores nessa praça
Ter sua consolação só pra conseguir
Leio manchetes por aí
Nada tremeu no ar
Não vi nem um sinal
Mesmo assim eu posso esperar
Até deixar o recado na tarde
Uma simples saudade
Que você vai sentir quanto sentar-se a mesa
Uma simples certeza
Que agora você que espera por mim..."

QUERO ENCONTRAR UM AMOR...

"Quero encontrar um amor
Daqueles que não batem na porta pra entrar
Aquele que não hesita
Em espantar a visita e quem me visitar
Seja um cordeiro e seja um leão
Um bicho do mato e de estimação
Que pode ser que me queira
Ou me faça dormir na esteira estendida no chão
Quero encontrar um amor
Misto de samba leve com heavy metal
Que ponha as unhas de fora
Mas no "H" da hora me venha total
Que tenha um ar diferente do meu
E seja um canal aberto pro céu
E sempre na geladeira
Um vinho de primeira
Roubado da adega de Deus..."
(Sérgio Sampaio)

PERDENDO O JUÍZO...

"Ando falando com as paredes
Vivendo a vida por tabela
Comendo na beira do prato
Tentando entender teu descaso
Me pendura no cabide,
Dorme com minha roupa...
Me tira do sério
envolve em mistérios...
To perdendo meu juizo
Já não quero mais essa arte
Pode levar teu estandarte
teu traje de amigo
Não é disso que preciso
Estou do lado do avêsso
Nem sei se me reconheço
Prefiro ficar sem assunto
Do que tentar chegar junto
Me perdendo em teu olhar
Mas estou certa que um dia
Voce vai me procurar e...
Na virada da gamela
Voce vai encontrar
Aquelas bobagens
Que eu chamava de amor..."
(Ana Lucia Camargo)