sábado, 24 de outubro de 2009

TANTO MAR

"Hoje eu queria um mar
negro em suas profundezas,
surdo na sua distância,
selvagem em suas origens.
Eu queria sentir a maresia
de tuas entranhas remotas,
queria ouvir o imaginário cantar
de tuas sereias misteriosas,
queria a espuma branca
se despejando cálida nos meus pés.
Eu queria o sem-fim da tua curva infinda
no horizonte plausível
onde os escuros se confundem,
a noite beijando tuas águas
e estas abraçando as estrelas.
Hoje eu queria um mar
onde eu navegasse perdido com minhas ilusões.
Hoje eu queria um mar
que me embalasse em meus sonhos
com seu canto marinho de ninar..."
(Otávio Coral)

A DANÇA DO SILÊNCIO...

"Ficasse o mundo em silêncio
e assim, nada haveria...
Sem o som,
que cor teria o movimento,
a dança, o gesto,
disfarçada alegria?
Será que a vida perderia
o espaço, o tempo,
o seu toque de euforia?
E como a dança,
essa dor,
no silêncio acabaria?"
(Mel Regina)

MARTÍRIO

"Um caminho torto me espera
Num lugar que ainda vou achar.
As lembranças incandescentes
Irão juntas e quem sabe um dia,
À beira de um caminho,
Ficarão por piedade.
Andarei nos vales obscuros da solidão
E atravessarei os rios gélidos do descaso.
Mendigarei amor nas ruas cinzentas
E ouvirei o soneto fúnebre da verdade.
O céu nevoento
Derramará suas lágrimas sobre mim.
Então, chorarei só e enfadado.
Porque me lograste?
Pediu-me amor e devolveu saudade..."
(José Augusto Machado)

ENSINA-ME A VIVER...

"Toque minha vida com tuas mãos.
Muda meu destino sombreado
Qual noite sem lua que abraça as horas.
Faze-me voar no céu do teu viver
Como se fosse uma criatura alada
Livre das grades da alma.
Toquem-me tuas mãos
Como se eu fosse uma criança inquieta
E me acalma.
Ensina-me querer-te sem ter medo
Querer-te assim como dia quer o sol
E a noite a lua.
Ensina-me a cantar de novo uma canção
Quase esquecida como se fosse
Um seresteiro de madrugada na rua.
Que teu olhar me seduza
Cada dia na mirada cúmplice
De quem ama em segredo.
Que leve de mim este reduto
De anseios indefinidos,
Este dia pálido quase imperecível.
Leve de mim este meu medo..."
(José Augusto Machado)

NO ÚLTIMO INSTANTE...

"Que me caia por sobre mim toda a chuva existente,
para que no último instante meu,
eu tome consciência da vida contida
em cada molécula de água...
Que me seja presente em mim
todas as chamas que aquecem e catalizam a vida,
para que no último instante meu,
eu saiba da reação induzida que gera todo viver...
Que me percorra por toda a pele,
a ventania de ventos,
comandantes dos movimentos que perfazem respiração,
para que no último instante meu,
respire a última realização,
execute a última ação
e conheça por fim o mecanismo da vida...
Com isto... que eu me caia por sobre a terra,
com densidade e completude,
com tempo suficiente para agradecer à matéria,
pela bondade de ter sido substrato,
permitindo meu Eu ser Alma...
Assim, dissolve-se a matéria,
retornam os elementos para a individualização...
Separação...Água, Fogo, Ar e Terra,
fora isto... o eu...
Então estarei livre,
me verei a mim mesma,
terei algum entendimento da verdade
e poderei ter um pequeno vislumbre do infinito..."
(Gaivota Dourada)

HOJE SABEMOS...

"Onde andarão os pensares pensados,
placidamente forjados no coração e na mente,
quando ainda era jovem o tempo
que então não corria como corre agora,
a esperança não se vestia de talvez
e o sonho não se travestia de ilusão...
Onde andarão os amores
alegremente sonhados,
imaginados, idealizados,
primariamente pintados,
primeiramente sentidos,
ternamente jurados
que não feneceriam jamais
quando ainda éramos nós
jovens no tempo
e não sabíamos que o tempo não passa,
o tempo não corre,
o tempo apenas observa o nosso passar...
Hoje sabemos que o passado não está no tempo,
o passado está em nós..."
(Gaivota Dourada)

OCULTA...

"Não.
Não quero que toques o meu corpo
como se dedilhasses a harpa do teu desejo.
Permito que alcances apenas minh'alma,
escondida no olhar desnudo que mira o horizonte.
O contorno das formas...
o corpo despido...
tudo permanecerá oculto pela escuridão
do tecido da vida que nos separa..."
(Ellen Veloso Soares)

MARCAS E EMOÇÕES...

"O Sol calorosamente apaixonado
escreve algo sobre o amor...
Dispersa raios de ternura sobre a praia.
A areia ensaia dizeres num coração.
Mas a noite enciumada levanta a maré.
Inunda o canto.
Expõe seu pranto.
Apaga o sonho.
Corrói-se em emulação...
Quando o dia novamente aparece,
na orla de estrangeiros sentimentos,
a sereia encontra um desenho em branco,
resquícios de desencanto...
um vazio... fiapos... um sopro.
A sereia também sente e pressente:
emoção em toques...
desejo-diamante,
uma luz, um amor colorido,
umas marcas de quem amou e foi feliz..."
(Ellen Veloso Soares)

FINALMENTE VOCÊ...

"Chove...
Vidros das janelas embaçados como meu passado.
Teu rosto, indistinto através destes vidros.
Poças d'água formadas no meu caminho há tanto tempo.
Por quê demoraste tanto?
De que adiantou esconder-te tão longe,
se o destino, decantado,
sábio destino, te reservou prá mim?
De que valeu tua vida sem mim?
Teu rosto há de ficar nítido.
A chuva há de passar, delinear teus traços.
Um minuto, agora você sabe,
pode ser bem maior que a eternidade,
pode significar o tempo que te prometi.
Eternidade sem chuvas, sem rostos embaçados,
sem aquelas poças geladas.
Teus olhos, claros, atentos, marcantes,
olhos de quem vê, finalmente.
Sol, luz, claridade, céu, tuas mãos.
Finalmente!"
(A.C. Rangel)

ETERNO...

"Inquieto e agitado fico,
sempre que te sinto e te pressinto ...
Pai da minha ansiedade, carrasco
e ao mesmo tempo mestre, professor.
Indócil, te encaro frente a frente,
tentando te entender.
Será que alguém já conseguiu?
Nada nem ninguém é tão persistente,
nada é tão inexorável.
Tua face, impenetrável,
não consigo distinguir...
Nem teus desígnios,
nem teus caprichos...
Impiedoso,
ao mesmo tempo consolador...
Imprevisível,
ao mesmo tempo rotineiro...
A ficção mais concreta e real.
Tu és, oh! Tempo,
o infindável Senhor de nossas vidas..."
(A. C. Rangel)

UM SONHO, APENAS...

"E dizer que te sonhei, te quis...
Ofertei-te meus sonhos e alegrias
e fiz tão minhas tuas pequenas coisas
por abrir mil corações às tuas chegadas...
E dizer que me ausentei, silenciei,
morri aos teus olhos quando assim querias
sofrendo a dor, tão maior, que me vencia
ao te chorar em tristezas e receios
quando não soube o que dizer dos teus silêncios
e nem o que fazer com meus vazios...
E dizer que me calei quando foi preciso
porque me tiravas o pensamento e a voz
com argumentos incontestáveis
quando partias do alcance de meus braços
que se prostravam,
resignados pela saudade que deixavas
enquanto, em outros braços, te encontravas...
Mas quando, carente e só, voltavas,
e me contavas tuas ansiedades, incertezas,
eram meus os braços que te acolhiam
felizes e imensos por te receber de volta...
Mas assim que te sentias, quem sabe, confortado,
pelas tantas coisas que te oferecia,
saciada a sede, a fome, a fantasia,
tiravas-me, pouco a pouco e sem cuidado,
o muito pouco que eu ainda tinha...
Estranhas, talvez, meu desencanto agora,
em que desfaço tudo o que te representa...
É só o meu cansaço, insana desistência,
somada a essa ausência que te dou de mim.
Mas só porque partiste...
E quiseste assim...
Talvez, no meu aceno, à despedida,
ainda me vejas disfarçar um gesto
que conte toda a dor que esse desfecho traz...
Só não te abraço... Nem conseguiria...
Porque desejaria te dizer: não vás!
E dou-me agora, para meu conforto,
um doce sublimar de sentimento em mim:
Poder pensar sem dor, que te sonhei um dia,
mas foste um sonho apenas...
E então, assim,
guardar-te nas lembranças que virão, mais tarde...
Poder viver a vida, sem sentir saudade...
Seguir, cabeça erguida,
peito livre, enfim..."
(Helena C. de Araujo)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A PARTIR DE SEMPRE...

"Sou, a partir de sempre,
As esquinas asfaltadas da cidade fantasma
E que por precaução ou simples temor,
Ninguém cruzou.
Sou qualquer coisa,
Como o rio que secou no verão passado
E que por abandono ou solidão, ninguém notou...
Sou hoje a soma de tudo
o que deveria ter sido e não fui.
Por mera covardia de sentir a tempestade,
Por mera aflição da urgência não atendida,
Por mera e substanciosa preguiça de ser...
Sou como essas linhas céleres
Escritas sem cuidado
E que o tempo, como a tudo que existe,
Cuidará de destruir..."
(Vanessa Marques)

A RAZÃO E A EMOÇÃO...

"Dei um tempo à razão e a emoção
para que ambas caminhassem de mãos dadas
e juntas pudessem resolver minhas pendências.
Me abstraí de dores absolutas
e perguntei qual delas prevaleceria.
Não obtive resposta.
Tornaram-se tão amigas que não conseguem decidir
qual das duas levará o maior quinhão do meu eu abstrato.
Não tenho pressa, ainda não sou a tempestade anunciada,
tão pouco a brisa prometida.
Sou, e sempre serei, o dono do meu castelo.
Prisioneiro de mim mesmo,
caça e caçador, sentença e execução.
Nunca adivinhado no teu coração,
Sempre refletido no baço espelho dos teus olhos..."

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O AMOR COMEU A MINHA PAZ...

"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato.
O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço.
O amor comeu meus cartões de visita.
O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minha altura, meu peso,
a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa.
Bebeu a água dos copos e das quartinhas.
Comeu o pão de propósito escondido.
Bebeu as lágrimas dos olhos
que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta,
cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,
e que riscava os livros, mordia o lápis,
andava na rua chutando pedras.
O amor comeu meu Estado e minha cidade.
Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré.
Comeu até essas coisas de que eu desesperava
por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas.
Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio,
os anos que as linhas de minha mão asseguravam.
O amor comeu minha paz e minha guerra.
Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão.
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça,
meu medo da morte..."
(João Cabral de Melo Neto)

AMOR DE MINHAS ENTRANHAS...

"Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita e penso,
com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal.
A pedra inerte não conhece a sombra e nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.
Porém eu te sofri.
Rasguei-me as veias, tigre e pomba,
sobre tua cintura em duelo de kordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras a minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena noite
da alma pra sempre escura..."
(Garcia Lorca)