"Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,e o que é o outono?
As pálpebras batem
contra o grande dia masculino do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia,
com furibunda concepção.
Com alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas em trompete.
Sou alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar..."
(Herberto Helder)
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
QUANDO PARTIRES...
"Quando partires, às cegas,
pelas veias da cidade,
encontrarás quem de mim diga que estou vivo,
ou o contrário.
E quando o fizeres, ver-me-ás, sozinho,
de rosto estampado nos quadros da parede,
com as pálpebras cerradas sobre o meu peito.
Escreverei cartas como se te desenhasse a cada palavra,
o vento voará por mim sem que o impeça,
e tocar-me-ei pela noite dentro,
imaginando que estás por aqui.
De hoje em diante, cerro a porta do quarto
para que não entres
-tenho a certeza de que te convidei,
um dia, mas já não estou certo.
Apagarei cigarros em frenesi,
como páginas soltas de memória
ou como lumes brandos nas copas das árvores -
imaginei tudo isto enquanto dormias,
nos teus sonhos em que o corpo era uma massa volúvel,
insana e vermelha.
Hoje já é manhã
-a esta hora já acorda quem por mim não passa.
Não durmo para que, ao chegar aonde tu estás,
possa ser uma surpresa ou desilusão-
como uma marca no peito,
como um soluço de água quando a noite cai.
Para isso estou hoje aqui,
para que me entregues e para que morra.
Pela penumbra, espalhei fotografias
e luas luminescentes que olho
e que gasto com a minha saliva,
como o selo desta carta.
Na minha pele ainda jaz o teu bafo quente
de quando acordavas e de quando eu te via
-às escuras, nua, pelo quarto herege e quente.
De dentro dos lençóis emanava a voz que,
aos nossos corpos, se assemelhava a uma religião,
a uma quase-entrega-imaterial.
E, por não te ter, me retiro para países
onde o sol se ponha e onde os olhos não me ardam.
Para que me possa solver no meio das multidões,
onde alguém fala, onde ninguém me conhece
-como uma palavra.
E em línguas estranhas me defino
no livro que escreves, dia após dia,
onde te recordas, onde deixas latente
quem eras ou quem serias se, por aqui,
as giestas fossem calmas e se o teu corpo se enlevasse
-à altura do meu peito surgem marcas,
os teus dedos estão queimados e a pele nada mais é
que um perfume mastigado onde não estás mais..."
(Sérgio Xarepe)
pelas veias da cidade,
encontrarás quem de mim diga que estou vivo,
ou o contrário.
E quando o fizeres, ver-me-ás, sozinho,
de rosto estampado nos quadros da parede,
com as pálpebras cerradas sobre o meu peito.
Escreverei cartas como se te desenhasse a cada palavra,
o vento voará por mim sem que o impeça,
e tocar-me-ei pela noite dentro,
imaginando que estás por aqui.
De hoje em diante, cerro a porta do quarto
para que não entres
-tenho a certeza de que te convidei,
um dia, mas já não estou certo.
Apagarei cigarros em frenesi,
como páginas soltas de memória
ou como lumes brandos nas copas das árvores -
imaginei tudo isto enquanto dormias,
nos teus sonhos em que o corpo era uma massa volúvel,
insana e vermelha.
Hoje já é manhã
-a esta hora já acorda quem por mim não passa.
Não durmo para que, ao chegar aonde tu estás,
possa ser uma surpresa ou desilusão-
como uma marca no peito,
como um soluço de água quando a noite cai.
Para isso estou hoje aqui,
para que me entregues e para que morra.
Pela penumbra, espalhei fotografias
e luas luminescentes que olho
e que gasto com a minha saliva,
como o selo desta carta.
Na minha pele ainda jaz o teu bafo quente
de quando acordavas e de quando eu te via
-às escuras, nua, pelo quarto herege e quente.
De dentro dos lençóis emanava a voz que,
aos nossos corpos, se assemelhava a uma religião,
a uma quase-entrega-imaterial.
E, por não te ter, me retiro para países
onde o sol se ponha e onde os olhos não me ardam.
Para que me possa solver no meio das multidões,
onde alguém fala, onde ninguém me conhece
-como uma palavra.
E em línguas estranhas me defino
no livro que escreves, dia após dia,
onde te recordas, onde deixas latente
quem eras ou quem serias se, por aqui,
as giestas fossem calmas e se o teu corpo se enlevasse
-à altura do meu peito surgem marcas,
os teus dedos estão queimados e a pele nada mais é
que um perfume mastigado onde não estás mais..."
(Sérgio Xarepe)
OS MELHORES ANOS DE MINHA VIDA...
"Os melhores anos da minha vida
passaram comigo ausente,
passaram numa corrente subterrânea.
Não me apercebi de nada,
distraído com a queda das folhas,
a densa mistura de pão e desordem.
Estava tudo em aberto, mas eu não sabia
senão de pequenas querelas,
e tímidos passos à toa,
sempre à espera de não ter futuro.
Sentado, como um pobre,
sobre o poço de petróleo,
eu media com tesouras as semanas,
misturava-me com livros,
ansiava pelo dia
em que deixasse de sangrar.
Os melhores anos da minha vida
troquei-os por isto..."
(José Miguel Silva)
passaram comigo ausente,
passaram numa corrente subterrânea.
Não me apercebi de nada,
distraído com a queda das folhas,
a densa mistura de pão e desordem.
Estava tudo em aberto, mas eu não sabia
senão de pequenas querelas,
e tímidos passos à toa,
sempre à espera de não ter futuro.
Sentado, como um pobre,
sobre o poço de petróleo,
eu media com tesouras as semanas,
misturava-me com livros,
ansiava pelo dia
em que deixasse de sangrar.
Os melhores anos da minha vida
troquei-os por isto..."
(José Miguel Silva)
CÁ DENTRO...
"Cá dentro,
mais dentro que o ar que se agita pelo meu corpo,
tão dentro que me dói até os pulmões ao respirar.
O mal que me fiz,
vê-lo reflectido nos outros faz com que me esconda,
escondida de mim escondo-me do mundo e perco o meu rumo,
os meus próprios passos são a melodia
de um adeus que me hás-de dar.
Saber que já não sei que é feito de mim,
quando dentro de nós há um todo em vazio
que se agita à minha frente e quase me ocupa o corpo,
estranha sensação tão modesta, tão humilde,
tão sincera, tão pura de ser.
Quando nos apetece rebentar por dentro
e deixar que se solte aquele grito
que vocês por muito que queiram não podem dar.
O que vos quero dizer é que vos amo,
não quero deixar claro que continuo a mesma
mas quero deixar claro que o meu espaço
não deixa de ser o vosso,
mesmo não sendo eu ou sendo uma outra eu
que se revela de vez enquanto..."
(Margarete da Silva)
mais dentro que o ar que se agita pelo meu corpo,
tão dentro que me dói até os pulmões ao respirar.
O mal que me fiz,
vê-lo reflectido nos outros faz com que me esconda,
escondida de mim escondo-me do mundo e perco o meu rumo,
os meus próprios passos são a melodia
de um adeus que me hás-de dar.
Saber que já não sei que é feito de mim,
quando dentro de nós há um todo em vazio
que se agita à minha frente e quase me ocupa o corpo,
estranha sensação tão modesta, tão humilde,
tão sincera, tão pura de ser.
Quando nos apetece rebentar por dentro
e deixar que se solte aquele grito
que vocês por muito que queiram não podem dar.
O que vos quero dizer é que vos amo,
não quero deixar claro que continuo a mesma
mas quero deixar claro que o meu espaço
não deixa de ser o vosso,
mesmo não sendo eu ou sendo uma outra eu
que se revela de vez enquanto..."
(Margarete da Silva)
O QUE É A ESPERANÇA?
"O que é a esperança?
Um animal com penas, pensei.
Preferia ser capaz de a descrever
de um modo menos obtuso.
Ser capaz de pôr num dia a eternidade
a germinar lentamente, isso sim,
seria uma das formas da esperança reconhecível.
Alguém, com passos ágeis, procura dominar
o desgosto que nos trouxe a esta sala.
Procura apaziguar a biologia,
os fluxos e refluxos que a animam,
a prometida destruição.
Alguém vigia por turnos a instabilidade da vida.
Tem por ofício prognósticos humildes,
uma cronologia de sábios gestos
que o uso torna incertos e verdadeiros
ou verdadeiros e incertos
-a ordem dos termos tornou-se arbitrária-.
A esperança é uma hipótese que anotámos
no caderno mais próximo,
esse que está em cima da mesa
aguardando uma visita de acaso..."
(Luís Quintais)
Um animal com penas, pensei.
Preferia ser capaz de a descrever
de um modo menos obtuso.
Ser capaz de pôr num dia a eternidade
a germinar lentamente, isso sim,
seria uma das formas da esperança reconhecível.
Alguém, com passos ágeis, procura dominar
o desgosto que nos trouxe a esta sala.
Procura apaziguar a biologia,
os fluxos e refluxos que a animam,
a prometida destruição.
Alguém vigia por turnos a instabilidade da vida.
Tem por ofício prognósticos humildes,
uma cronologia de sábios gestos
que o uso torna incertos e verdadeiros
ou verdadeiros e incertos
-a ordem dos termos tornou-se arbitrária-.
A esperança é uma hipótese que anotámos
no caderno mais próximo,
esse que está em cima da mesa
aguardando uma visita de acaso..."
(Luís Quintais)
VIESTE E FOSTE...
"Vieste e foste, ignoro se poderás voltar.
Ontem, ao partires,não reparaste
que me deixavas menos feliz.
Embora tudo ficasse feito
e decidido não sei que incompletude me abalou
–talvez a espera.
Perdi-me absurdamente no caminho e, por momentos,
a luz libidinal do teu pensamento fugiu de mim.
As coisas deixaram a concretude
com que sempre as tinha conhecido.
Sem perspectiva, nem letra.
Ao regressar à terra, não quis escrever no teu caderno.
Arranquei-lhe apenas esta folha.
Fui um pobre corpo.
Rasguei-me a mim próprio e quis deitar-me fora.
Por isso te deixo este bilhete.
Vieste e foste.
Não foi por isso que te amei menos.
Em mim, não se realizou a tua conjectura
sobre a ressurreição da carne.
Reconhecerás tu, neste impulso da visão,
uma carta de amor?"
(Maria Gabriela Llansol)
Ontem, ao partires,não reparaste
que me deixavas menos feliz.
Embora tudo ficasse feito
e decidido não sei que incompletude me abalou
–talvez a espera.
Perdi-me absurdamente no caminho e, por momentos,
a luz libidinal do teu pensamento fugiu de mim.
As coisas deixaram a concretude
com que sempre as tinha conhecido.
Sem perspectiva, nem letra.
Ao regressar à terra, não quis escrever no teu caderno.
Arranquei-lhe apenas esta folha.
Fui um pobre corpo.
Rasguei-me a mim próprio e quis deitar-me fora.
Por isso te deixo este bilhete.
Vieste e foste.
Não foi por isso que te amei menos.
Em mim, não se realizou a tua conjectura
sobre a ressurreição da carne.
Reconhecerás tu, neste impulso da visão,
uma carta de amor?"
(Maria Gabriela Llansol)
PERDOA-ME!
"Perdoem-me!
Por tudo o que fiz ou o que não deveria ter feito,
porque me dói olhar-te nos olhos,
enfim por um vasto conjunto de coisas tão imensas
como o mundo que carrego em mim,
ou a dor, ou o sofrimento, ou a vontade de chorar,
ou chamem-lhe o que quiserem; desculpa.
Não fui tão forte como deveria ter sido,
como fui até agora, talvez tenha tentado recusar a dor
até que não aguentei e hoje dentro de mim algo explodiu.
Sei que prometi que não voltaria a fazê-lo
mas se vocês entendessem de algum modo
o silêncio que carrego em mim,
um fardo tão pesado como olhar-vos nos olhos
e ver que estão desiludidos por eu ter feito o que fiz.
Aconteceu porque tinha de acontecer,
se existir Deus há-de entender,
se não existir há-de entender na mesma,
quero lá saber, preocupa-me agora o que sinto
e o que sinto é uma pena enorme de mim por sofrer tanto,
ao mesmo tempo uma desilusão tremenda
por ter chegado onde cheguei
e ter recuado assim sem mais nem ontem...
Depois esta vontade de não deixar
que este desencanto e desconsolo perca o controle
e voltar a seguir o mesmo rumo,
porque eu sei que dê por onde der
eu ainda vou conseguir sair deste labirinto
que mora dentro de mim..."
(Margarete da Silva)
Por tudo o que fiz ou o que não deveria ter feito,
porque me dói olhar-te nos olhos,
enfim por um vasto conjunto de coisas tão imensas
como o mundo que carrego em mim,
ou a dor, ou o sofrimento, ou a vontade de chorar,
ou chamem-lhe o que quiserem; desculpa.
Não fui tão forte como deveria ter sido,
como fui até agora, talvez tenha tentado recusar a dor
até que não aguentei e hoje dentro de mim algo explodiu.
Sei que prometi que não voltaria a fazê-lo
mas se vocês entendessem de algum modo
o silêncio que carrego em mim,
um fardo tão pesado como olhar-vos nos olhos
e ver que estão desiludidos por eu ter feito o que fiz.
Aconteceu porque tinha de acontecer,
se existir Deus há-de entender,
se não existir há-de entender na mesma,
quero lá saber, preocupa-me agora o que sinto
e o que sinto é uma pena enorme de mim por sofrer tanto,
ao mesmo tempo uma desilusão tremenda
por ter chegado onde cheguei
e ter recuado assim sem mais nem ontem...
Depois esta vontade de não deixar
que este desencanto e desconsolo perca o controle
e voltar a seguir o mesmo rumo,
porque eu sei que dê por onde der
eu ainda vou conseguir sair deste labirinto
que mora dentro de mim..."
(Margarete da Silva)
HOJE NÃO É DIA PARA PALAVRAS...
"Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha, filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol circular
o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite uma cratera para boêmios
não é uma pátria,
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos, uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor, a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens,
não é para palavras..."
(António José Forte)
e às pequeninas coisas
teias de aranha, filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol circular
o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite uma cratera para boêmios
não é uma pátria,
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos, uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor, a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens,
não é para palavras..."
(António José Forte)
PERDI-ME DE TI...
"Canto o fado triste das mãos já gastas
pela despedida tenra que soou com a manhã,
cruzo então os braços à distância
e deixo que o meu corpo se ria de mim,
serei sincera demais comigo, abrirei os meus braços
e deixarei que a minha pele se revolte
enquanto balanço o meu corpo
que agarrado a nada quase consegue voar.
Provavelmente sempre fui a estrela
mais escura do teu céu,
abre os olhos e agita as mãos
para eu te ver no meio da escuridão,
acende a tua luz, perdi-me de ti."
(Margarete da Silva)
pela despedida tenra que soou com a manhã,
cruzo então os braços à distância
e deixo que o meu corpo se ria de mim,
serei sincera demais comigo, abrirei os meus braços
e deixarei que a minha pele se revolte
enquanto balanço o meu corpo
que agarrado a nada quase consegue voar.
Provavelmente sempre fui a estrela
mais escura do teu céu,
abre os olhos e agita as mãos
para eu te ver no meio da escuridão,
acende a tua luz, perdi-me de ti."
(Margarete da Silva)
A PESSOA MAIS ESPECIAL...
O teu abraço cala-me as maiores tristezas.
Não há silêncio meu que te assuste
nem suspiro algum que não saibas de cor.
Contigo não preciso esconder o medo.
Muito menos fingir.
Posso encolher-me no teu peito
e deixar cair todas as lágrimas:
irás secá-las com beijos.
É assim que gosto de respirar o teu cheiro:
encostada a ti.
Não quero que me enchas de sonhos
–sabes bem que os tenho comigo se não tos conto.
Basta-me saber quanto os respeitas
e estou certa de que continuaremos
a não saber dançar a mesma canção.
Mas eu só preciso que tu me entendas.
Que continues a admirar-me a transparência
e os olhos brilhantes.
Que passeies comigo de mão dada à beira daquele jardim
e me puxes para ti quando me julgares perdida.
Eu não posso perder-te de vista.
Não quero. Porque preciso de ti: tu sabes.
Será por isso que não vais embora?
Não foges e nem sequer te acobardas.
Ficas sempre do outro lado do espelho
pronto a alertar-me ao mínimo sinal de emergência.
A poesia dentro de ti –ainda que duvides disso–
faz-se de verdade e coragem.
Não te sabes escrever de outra maneira.
Não é necessário.
Eu agradeço baixinho a seguir-te de perto
e a pensar para mim que és
a pessoa mais especial que conheço..."
(Amalia Bautista)
Não há silêncio meu que te assuste
nem suspiro algum que não saibas de cor.
Contigo não preciso esconder o medo.
Muito menos fingir.
Posso encolher-me no teu peito
e deixar cair todas as lágrimas:
irás secá-las com beijos.
É assim que gosto de respirar o teu cheiro:
encostada a ti.
Não quero que me enchas de sonhos
–sabes bem que os tenho comigo se não tos conto.
Basta-me saber quanto os respeitas
e estou certa de que continuaremos
a não saber dançar a mesma canção.
Mas eu só preciso que tu me entendas.
Que continues a admirar-me a transparência
e os olhos brilhantes.
Que passeies comigo de mão dada à beira daquele jardim
e me puxes para ti quando me julgares perdida.
Eu não posso perder-te de vista.
Não quero. Porque preciso de ti: tu sabes.
Será por isso que não vais embora?
Não foges e nem sequer te acobardas.
Ficas sempre do outro lado do espelho
pronto a alertar-me ao mínimo sinal de emergência.
A poesia dentro de ti –ainda que duvides disso–
faz-se de verdade e coragem.
Não te sabes escrever de outra maneira.
Não é necessário.
Eu agradeço baixinho a seguir-te de perto
e a pensar para mim que és
a pessoa mais especial que conheço..."
(Amalia Bautista)
VAMOS FAZER LIMPEZA...
"Vamos fazer limpeza, mas geral
e vamos deitar fora as coisas todas
que não nos servem para nada,
essas coisas que não usamos já
e essas que nada fazem mais que apanhar pó,
as que evitamos encontrar porquanto
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos fazem mal, enchem espaço
ou não quisemos nunca ter por perto.
Vamos fazer limpeza, mas geral,
talvez melhor ainda uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
que fiquem onde sempre têm estado;
vamos embora só nós, vida minha,
para voltar a acumular de novo.
Ou vamos deitar fogo ao que nos cerca
e ficarmos em paz com essa imagem
do braseiro do mundo face aos olhos
e com o coração desabitado."
(Amalia Bautista)
e vamos deitar fora as coisas todas
que não nos servem para nada,
essas coisas que não usamos já
e essas que nada fazem mais que apanhar pó,
as que evitamos encontrar porquanto
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos fazem mal, enchem espaço
ou não quisemos nunca ter por perto.
Vamos fazer limpeza, mas geral,
talvez melhor ainda uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
que fiquem onde sempre têm estado;
vamos embora só nós, vida minha,
para voltar a acumular de novo.
Ou vamos deitar fogo ao que nos cerca
e ficarmos em paz com essa imagem
do braseiro do mundo face aos olhos
e com o coração desabitado."
(Amalia Bautista)
PERCO O MEU CAMINHO...
"Perco o meu caminho,
qual deles é, o da esquerda ou o da direita?
O da frente ou o de trás?
Olho-me no charco de sangue por baixo dos meus pés desnudos,
olho-me e deixo que se revele uma alma que me pertence inteira.
Fico calada mais do que um pouco,
tanto ou mais do que deveria ser
e depois engulo os silêncios e as palavras
e deixo que se escorra o suor por mim abaixo...
Dói ter a garganta presa, atada por segundos,
quase me sinto esganar pela loucura de me ver assim
e depois abandono o meu corpo
e do cimo do meu céu olho o meu corpo, uma loucura exemplar,
uma besta qualquer perdida entre as suas próprias nuvens.
Qual o caminho a seguir?
Deixo então que a poeira se solte em gritos de revolta,
foi tudo tão diferente e repentino,
foi tudo tão sereno e agitado,
foi tudo assim tão simples
que não pude conter a vontade maluca
de me cortar e perdoe-me quem me julga por o ter feito.
Quando me corto não é porque a sensação seja a melhor,
a mim também me dói mas a dor física
em nada se compara à dor emocional,
poderia passar horas a tentar explicar-vos
isto mas não me apetece,
simplesmente porque quero acabar com tudo isto,
de uma vez por todas,
não quero que nada disto se volte a repetir."
(Margarete da Silva)
qual deles é, o da esquerda ou o da direita?
O da frente ou o de trás?
Olho-me no charco de sangue por baixo dos meus pés desnudos,
olho-me e deixo que se revele uma alma que me pertence inteira.
Fico calada mais do que um pouco,
tanto ou mais do que deveria ser
e depois engulo os silêncios e as palavras
e deixo que se escorra o suor por mim abaixo...
Dói ter a garganta presa, atada por segundos,
quase me sinto esganar pela loucura de me ver assim
e depois abandono o meu corpo
e do cimo do meu céu olho o meu corpo, uma loucura exemplar,
uma besta qualquer perdida entre as suas próprias nuvens.
Qual o caminho a seguir?
Deixo então que a poeira se solte em gritos de revolta,
foi tudo tão diferente e repentino,
foi tudo tão sereno e agitado,
foi tudo assim tão simples
que não pude conter a vontade maluca
de me cortar e perdoe-me quem me julga por o ter feito.
Quando me corto não é porque a sensação seja a melhor,
a mim também me dói mas a dor física
em nada se compara à dor emocional,
poderia passar horas a tentar explicar-vos
isto mas não me apetece,
simplesmente porque quero acabar com tudo isto,
de uma vez por todas,
não quero que nada disto se volte a repetir."
(Margarete da Silva)
JÁ NÃO BATE O MEU CORAÇÃO...
"Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.
Onde a amizade nada pode
nem os anos da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.
Quem corre para o limiar é louco,
e quem o alcançar é ferido de aflição.
Agora compreendes porque já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração."
(Anna Akhmátova)
encantamento e paixão não o podem transpor
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.
Onde a amizade nada pode
nem os anos da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.
Quem corre para o limiar é louco,
e quem o alcançar é ferido de aflição.
Agora compreendes porque já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração."
(Anna Akhmátova)
NÃO RESISTO À TENTAÇÃO...
"Agora tenho um horário que me rouba horas à poesia.
É simples - de tão escandaloso que é:
não posso dar-me ao luxo de pensar em ti a cada instante
e –está explicado!–
já nem tento oferecer os pulsos para que os beijes.
Agora perco-me em saudações cordiais e sorrisos de bons dias.
Sou toda leveza, acreditas?
Em mim já não há espaço para a alegre melancolia dos teus olhos.
Deixa-me que te minta.
À hora de almoço quase me vou abaixo na determinação
que -diariamente e num esforço notável-
impinjo ao meu peito para te esquecer.
Quase. Junto com o arroz e a hortaliça
–cuidadosamente expostos num tupperware amarelo–
trago também aquele livro às escondidas.
Repara: a cor é a mesma
e eu sempre gostei de cores garridas para espantar o desgosto.
Pensei em abri-lo -como sempre- depois do ritual do café.
Mas digo que não e resisto à tentação.
Hoje saí cedo com um vestido de folhos até aos pés
e decidi chamar o calor.
Pintei as unhas para me entreter.
Aqui ninguém te conhece e não há tempo para apresentações
nem mais vagar para lágrimas.
Não deixo que me provoques.
Sobrevivo impune por amor à literatura.
Talvez pelo pouco amor que lhe tenho não me deixo seduzir.
Só por isso. E quando chego a casa
estou demasiado cansada para que me despertes.
Ainda bem.
Já não me sento à varanda a ver-te chegar.
Abandonei as bebedeiras e todos os vícios.
Vivo agora num coração saudável:
especificamente treinado para a rotina.
Adormeço ao som da mesma música
mas já não peço que me sussurres a carta da paixão ao ouvido.
Eu também só sei ler para dentro, amor.
A rua está vazia e não há mais nada que nos peça claridade.
Amanhã tenho uma encomenda
sem réstia de imaginação para preparar.
Encontrei maneira de não ter tanto medo do futuro:
porque já não te espero às minhas mãos.
Num impulso. Morreste-me como um nó atravessado na garganta
e eu –asfixiada– suicidei-me a seguir.
Para que saibas: foi assim que deixei de escrever."
(Margaret Atwood)
É simples - de tão escandaloso que é:
não posso dar-me ao luxo de pensar em ti a cada instante
e –está explicado!–
já nem tento oferecer os pulsos para que os beijes.
Agora perco-me em saudações cordiais e sorrisos de bons dias.
Sou toda leveza, acreditas?
Em mim já não há espaço para a alegre melancolia dos teus olhos.
Deixa-me que te minta.
À hora de almoço quase me vou abaixo na determinação
que -diariamente e num esforço notável-
impinjo ao meu peito para te esquecer.
Quase. Junto com o arroz e a hortaliça
–cuidadosamente expostos num tupperware amarelo–
trago também aquele livro às escondidas.
Repara: a cor é a mesma
e eu sempre gostei de cores garridas para espantar o desgosto.
Pensei em abri-lo -como sempre- depois do ritual do café.
Mas digo que não e resisto à tentação.
Hoje saí cedo com um vestido de folhos até aos pés
e decidi chamar o calor.
Pintei as unhas para me entreter.
Aqui ninguém te conhece e não há tempo para apresentações
nem mais vagar para lágrimas.
Não deixo que me provoques.
Sobrevivo impune por amor à literatura.
Talvez pelo pouco amor que lhe tenho não me deixo seduzir.
Só por isso. E quando chego a casa
estou demasiado cansada para que me despertes.
Ainda bem.
Já não me sento à varanda a ver-te chegar.
Abandonei as bebedeiras e todos os vícios.
Vivo agora num coração saudável:
especificamente treinado para a rotina.
Adormeço ao som da mesma música
mas já não peço que me sussurres a carta da paixão ao ouvido.
Eu também só sei ler para dentro, amor.
A rua está vazia e não há mais nada que nos peça claridade.
Amanhã tenho uma encomenda
sem réstia de imaginação para preparar.
Encontrei maneira de não ter tanto medo do futuro:
porque já não te espero às minhas mãos.
Num impulso. Morreste-me como um nó atravessado na garganta
e eu –asfixiada– suicidei-me a seguir.
Para que saibas: foi assim que deixei de escrever."
(Margaret Atwood)
APENAS OS MEUS OLHOS....
"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis...
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias:
os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus..."
(Eugénio de Andrade)
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis...
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias:
os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus..."
(Eugénio de Andrade)
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