domingo, 24 de janeiro de 2010

ESTE AMOR...

"Este amor que nos jorra - jorra e queima
em paixão que flutua ou já guerreia
contra si próprio se tornado cinza,
contra o destino se tornado areia...

Este amor é dilúvio - é fora e dentro
mesmo se sabendo que é candeia
a esmorecer em bruma, ao fogo lento
de nos deixar a dor quando se enleia

à nossa desrazão, ao fim do entendimento,
à ambígua amarração de luz e de tormento
nestas bolsas de sal às vezes cheias.

Este amor é de carne - é foz patente
de um rio sempre a crescer, sempre na esteira
do que tão perto está mesmo se ausente."

(João Rui de Sousa)

A DOR QUE CAUSA...

"Podes colher de mim
tudo quanto precisares
alimento-me só de saudade
um corpo que deixou
de tremer por mim
suar por mim
em todas as superfícies
a dor que causa
é só comparável ao prazer
que foi quem de gerar..."
(Alberte Momán)

COMO A LUA NA ÁGUA

"Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca,
desenhando-a como se saísse da minha mão,
como se a tua boca
se entreabrisse pela primeira vez,
e basta-me fechar os olhos
para tudo desfazer e começar de novo,
faço nascer outra vez a boca que desejo,
a boca que a minha mão define
e desenha na tua cara,
uma boca escolhida entre todas as bocas,
escolhida por mim com soberana liberdade
para desenhá-la com a minha mão na tua cara
e que, por um acaso
que não procuro compreender,
coincide exatamente com a tua boca,
que sorri por baixo
da que a minha mão te desenha.
Olhas-me, de perto me olhas,
cada vez mais de perto,
e então brincamos aos ciclopes,
olhando-nos cada vez mais de perto.
Os olhos agigantam-se,
aproximam-se entre si,
sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se,
respirando confundidos,
as bocas encontram-se e lutam sem vontade,
mordendo-se com os lábios,
quase não apoiando a língua nos dentes,
brincando nos seus espaços
onde um ar pesado vai e vem
com um perfume velho e um silêncio.
Então as minhas mãos
tentam fundir-se no teu cabelo,
acariciar lentamente
as profundezas do teu cabelo
enquanto nos beijamos
como se tivéssemos a boca
cheia de flores ou de peixes,
de movimentos vivos,
de uma fragrância obscura.
E se nos mordemos a dor é doce,
e se nos afogamos num breve
e terrível absorver simultâneo do fôlego,
essa morte instantânea é bela.
E há apenas uma saliva
e apenas um sabor a fruta madura,
e eu sinto-te tremer em mim
como a lua na água..."
(Julio Cortazar)

NÃO DIGAS NADA...

"Não digas nada
–a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras.
O que disseres será um beijo pousado
nos lábios de outra mulher,
dor e mais dor,
traição maior para quem acreditou
que o teu amor era para a morte.
Não fales
–tenho também ciúmes da tua voz;
ouvir-te é ficar só uma vez mais."
(Maria do Rosário Pedreira)

A TUA AUSÊNCIA...

"Pelas paredes cheira ainda à tua pele cutânea.
Mas desde que te foste, estar aqui é oco,
cansativo, uma espera.
E às vezes -como se tivéssemos chorado-
respirar custa.
Sobretudo nada apetece.
Sair para a rua?
Ir então em frente a repetir os passos
passear nas avenidas a espaçar as horas
dispersar a espera?
Tudo cinzento. Choverá?
Aqui é que não fico.
No quarto onde dormimos o espaço sobra,
e cada coisa já morreu ou está a mais.
Em toda a casa uma violência subterrânea:
a tua ausência..."
(João Habitualmente)

ACORDA VIDA.

"Dirás que sonho
O dementado sonho de um poeta
Se digo que me vi em outras vidas
Entre claustros, pássaros, de marfim uns barcos?
Dirás que sonho uma rainha persa
Se digo que me vi dolente e inaudita
Entre amoras negras, nêsperas, sempre-vivas?
Mas não. Alguém gritava: acorda, acorda Vida.
E se te digo que estavas ao meu lado
E eloquente e amante e de palavras ávido
Dirás que menti? Mas não. Alguém gritava:
Palavras... apenas sons e areia. Acorda.
Acorda Vida."
(Hilda Hilst)

O AMOR QUE GERMINA

"Falarei menos que um peixe, amor,
das líquidas emoções ou desejo serpenteado
sobre o que começa junto as rotas umbilicais.
Não me procures no rumo do vento
no cansaço da lua asfixiante, no mistério
ritmo da noite voltada para disponibilidade
de um sexo tecido de felicidade.
Diz-me com ternura imensa, a dor profana
a finitude do prazer de te descobrir
procuradamente na suavidade duma errância
com que te inicio
no embrulho do teu calor langoroso.
É um orvalho matinal que te rega
um suspiro úmido com sabor a algas
dos teus seios fugidios, ardente abandono
lascivo amanhecer.
Na carta que sustenta este ardor
sôfrego desejo me embala a fadiga
de te possuir com secreta evasão,
sentida excitação de me deixar aprisionar
no excesso fantasmagórico da sublimação
primitiva da vida e do amor que germina."
(Américo Teixeira Moreira)

ANTES QUE MORRA O AMOR

"Vem ver-me antes que morra de amor
–o sangue arrefece dentro do meu corpo
e as rosas desbotam nas minhas mãos.
Da minha cama ouço a tempestade nos continentes;
e já quis partir,
deixar que o vento levasse a minha mala por aí;
fiz planos de correr mundo para te esquecer–
mas nunca abria a porta...
Vem ver-me enquanto não morro, mas vem de noite
–a luz sublinha a agonia de um rosto
e quero que me recordes como eu podia ter sido.
Da minha cama vejo o sol tatuar as costas do meu país;
e já sonhei que o perseguia,
que desenhava o teu nome no veludo da areia
e sentia a vida a pulsar nessa palavra
como o músculo tenso escondido sob a pele–
mas depois acordava e não ia...
Vem ver-me antes que morra, mas vem depressa
–os livros resvalam-me do colo
e o bolor avança sobre a roupa.
Da minha cama sinto o perfume das folhas
tombadas nos caminhos. O Outono chegou.
E o quarto ficou tão frio de repente.
E tu sem vires...
Agora quero deitar-me no tapete de musgo do jardim
e ouvir bater o coração da terra no meu peito.
Os vermes alimentam-se dos sonhos de quem morre.
E tu não vens..."
(Maria do Rosário Pedreira)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

DOCES FANTASMAS

"Doces fantasmas esvoaçam
os ares dentro de meu quarto.
Parecem pássaros, invisíveis voam.
Eles passeiam, bailam, mas não aparecem,
ou não os vejo, somem nas cortinas da noite,
mas me despertam, como no super-soneto de Pessoa:

-Súbita mão de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite não enxergo gesto ou vulto.-

E eu acendo luzes, ouço a madrinha da madrugada.
Medito. Ligo a TV, mas logo desisto, desligo.
No fim perco o sono, e...:

-Mas um terror antigo, que insepulto
Trago no coração, como de um trono
Desce e se afirma meu senhor e dono
Sem ordem, sem meneio e sem insulto.-

Acordo.
Tento entender o terror antigo, insepulto.
Resolvo ouvir música, assim baixinho, no headphone.
Afinal é tarde, muito tarde. Perco as horas.

-E eu sinto a minha vida de repente
Presa por uma corda de Inconsciente
A qualquer mão nocturna que me guia.
Sinto que sou ninguém salvo uma sombra
De um vulto que não vejo e que me assombra,
E em nada existo como a treva fria.-

Depois do concerto volto a dormir. Em êxtase.
Os doces fantasmas da música me conduzem
a um lugar de extraordinária e lúcida beleza,
embora onírica,
e «sinto que sou ninguém salvo uma sombra»,
que «em nada existo como a treva fria»."

(Rogel Samuel)

O PUNHAL

"A mão que acaricia é aberta;
Mas quando ela se fecha no cabo de um punhal,
ela é mortal.
Quando meu amigo Gerardo morreu,
abriram seu armário de caça,
e me mandaram escolher o que eu quisesse.
Escolho cinco assobios de madeira
que imitam os cantos dos pássaros,
e um grande e estreito punhal,
o cabo trabalhado em prata
e pedra preciosa brasileira.
Eu percebi muito tempo depois,
que a lamina do punhal
era mais pesada que o cabo
e isso permitia
que se eu o largasse de certa altura,
ele caia fincado na madeira, sem esforço.
Tive uma vida ferida,
no seio de uma familia
que não me compreendia.
Às vezes, adolescente,
eu segurava o punhal, pensando:
- Você me tiraria desta vida,
mas pressinto
que me acompanharás o tempo todo-
companheiro agressor,
mas sustentáculo onde muitas vezes
o amor nos ameaça na sombra
mas o segredo da vida
abre asas em nosso Espirito..."
(Clarisse de Oliveira)

ACORDO DE NOITE SUBTAMENTE

"Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a natureza lá fora.
O meu quarto é uma coisa escura
com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens
que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite
com os cantos da boca,
Porque a única coisa
que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez..."
(Fernando Pessoa/Alberto Caeiro)

EXILIO

"Esta mania de me saber anjo, sem idade,
sem morte para a qual viver,
sem piedade por meu nome
nem por meus ossos que choram vagando...
E quem não tem um amor?
E quem não goza por entre amapolas?
E quem não possui um fogo, uma morte,
um medo, algo horrível,
ainda que fira com plumas,
ainda que fira com sorrisos?
Sinistro delírio amar uma sombra.
A sombra não morre.
E meu amor só abraça ao que flui
como lava do inferno:
una loja calada,
fantasmas em doce ereção,
sacerdotes de espuma,
e sobretudo anjos,
anjos belos como lâminas
que se elevam na noite
e devastam a esperança..."
(Alejandra Pizarnik)

O ESPELHO

"O espelho a minha frente é coisa muda,
Mas de sua mudez ele me fala:
A imagem alheia do outro lado
Me contempla longínqua e interrogante,
Parte de mim, em mim multiplicada,
E posta fora do que sou, textura
De outra pessoa, de outro sonho e forma
-No largo sono de um deus tranqüilo,
A voz se cala e deixa que o cristal
A memória de um vago ser recrie-
Ilusória assim como qualquer cifra.
Existimos, inúteis, refletidos.
Um teatro de sombras, sigiloso:
O que somos, em nosso alto crepúsculo."
(Jorge Luis Borges)

NÓS

"Por mais alto que subamos
e mais baixo que desçamos,
nunca saímos das nossas sensações.
Nunca desembarcamos de nós.
Nunca chegamos a outrem, senão
outrando-nos pela imaginação
sensível de nós mesmos.
As verdadeiras paisagens
são as que nós mesmos criamos,
porque assim, sendo deuses delas,
as vemos como elas verdadeiramente são,
que é como foram criadas.
Não é nenhuma das sete partidas do mundo
aquela que me interessa
e posso verdadeiramente ver;
a oitava é a que percorro e é a minha..."
(Fernando Pessoa)

PLANO

"Trabalho o poema sobre uma hipótese:
o amor que se despeja no copo da vida, até meio,
como se o pudéssemos beber de um trago.
No fundo, como o vinho turvo,
deixa um gosto amargo na boca.
Pergunto onde está a transparência do vidro,
a pureza do líquido inicial,
a energia de quem procura esvaziar a garrafa;
e a resposta são estes cacos que nos cortam as mãos,
a mesa da alma suja de restos,
palavras espalhadas num cansaço de sentidos.
Volto, então, à primeira hipótese.
O amor.
Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro..."
(Nuno Judice)