"Tenho ciúmes, nem imaginas os ciúmes que tenho,
queria que fossem só meus, esses fiapos de atenção
que distribuis pelos outros em rateio ao longo do dia.
Tenho ciúmes da mulher com que te cruzas na rua pela manhã,
que passa apressada e sombria sem te atentar no perfume.
Tenho ciúmes da vizinha que partilha contigo
o metro quadrado do elevador, respirando ambos o mesmo ar;
da tua secretária, que chega por trás
e se debruça perigosamente sobre essa nuca que é minha,
para te mostrar um documento qualquer;
e da empregada do restaurante, que recebe o teu pedido,
sugerindo-te as especialidades do dia,
e a quem sorris alheio enquanto encomendas
o melhor vinho da lista para impressionares
quem se senta ao teu lado.
Tenho ciúmes de quem se senta ao teu lado
e usufrui de toda a tua atenção;
e da loura que vai no trânsito,
a quem dás prioridade e deixas passar à frente
com um aceno de cabeça e um olhar de raspão,
desfocado mas atrevido.
Tenho ciúmes da rapariga da bomba onde enches o depósito,
a quem pedes um maço de cigarros e por quem aguardas
enquanto conta os trocos com dificuldade;
da hospedeira que te serve o bloody mary
mal o avião levanta vôo,
e das que olham para ti na rua
e te prescrutam o dedo anelar,
tentando perceber se és casado,
se estás disponível ou se ambas as coisas.
Tenho ciúmes das que têm coragem para te abordar
de rompante num bar e te beijam na boca
como se fosses delas -e por momentos até és-,
te arrastam para um quarto,
te viram do avesso e te deixam;
das vendedeiras da praça que te tratam por menino
com impudência desabrida;
e da doutora da farmácia onde avias as receitas,
do tempo que demoras ao balcão, fazendo conversa,
conferindo dosagens, pedindo recibos.
Tenho ciúmes da velhota da pastelaria
que te conhece há anos e que te tremelica
uns bons dias com familiaridade deslocada;
e da advogada canina com quem te reunes amiúde,
convencido de que a lei te vai resolver
toda essa vida sem mim.
Tenho ciúmes da tua mulher,
da indiferença que lhe votas quando chegas a casa,
das conversas geladas sobre domesticidades
-qualquer coisa me servia agora-;
e tenho ciúmes da tua empregada,
que espaneja e arruma os restos de ti
que sobram pela casa quando não estás,
recolhendo em sacos de aspirador os teus cheiros
e essa tristeza que deixas depositados nos cantos.
Tenho ciúmes, nem imaginas os ciúmes que tenho."
(Sofia Vieira)
sábado, 1 de maio de 2010
A ÚLTIMA PARAGEM
"Preciso que estejas aqui e me salves dos fantasmas
que atacam em bando aos primeiros alvores do dia.
Espanta-os. Redime-me de alguma forma,
como se me absolvesses em confissão,
ou como um pai que perdoasse
os desmandos do filho pródigo.
Eu não sou só eu: sou também isto,
este excesso de bagagem que dá multa,
os gritos que não ouves quando falo muito,
quando falo demais, com o intuito nervoso
de espantar o bando de corvos que me cerca
e me enegrece em voos rasantes de agoiro.
Tenho sempre medo a esta hora da madrugada:
sinto-me fraca, na vazante, no soçobro, um fio de gente,
um engano cósmico qualquer.
Os primeiros autocarros aceleram pela rua ainda vazia,
esforçando os motores barulhentos,
a televisão repete séries e concursos requentados
e há uma preocupação indefinida que paira no ar,
como quando tememos que um filho adoeça
por ouvirmo-lo tossir no quarto.
Já a culpa, essa, é uma luz acesa no meio da sala,
que me incandesce e me cega.
Há coisas que não te contei
só porque não as quiseste saber, mas isto,
ao menos, regista para memória futura:
quando não estamos juntos, forças adversas aproveitam
o eu estar sozinha para me acoitarem à covardia,
no silêncio do dia que nasce, indiferente.
Vêm lestas, como os autocarros na rua,
e eu sou a sua última paragem..."
(Sofia Vieira)
que atacam em bando aos primeiros alvores do dia.
Espanta-os. Redime-me de alguma forma,
como se me absolvesses em confissão,
ou como um pai que perdoasse
os desmandos do filho pródigo.
Eu não sou só eu: sou também isto,
este excesso de bagagem que dá multa,
os gritos que não ouves quando falo muito,
quando falo demais, com o intuito nervoso
de espantar o bando de corvos que me cerca
e me enegrece em voos rasantes de agoiro.
Tenho sempre medo a esta hora da madrugada:
sinto-me fraca, na vazante, no soçobro, um fio de gente,
um engano cósmico qualquer.
Os primeiros autocarros aceleram pela rua ainda vazia,
esforçando os motores barulhentos,
a televisão repete séries e concursos requentados
e há uma preocupação indefinida que paira no ar,
como quando tememos que um filho adoeça
por ouvirmo-lo tossir no quarto.
Já a culpa, essa, é uma luz acesa no meio da sala,
que me incandesce e me cega.
Há coisas que não te contei
só porque não as quiseste saber, mas isto,
ao menos, regista para memória futura:
quando não estamos juntos, forças adversas aproveitam
o eu estar sozinha para me acoitarem à covardia,
no silêncio do dia que nasce, indiferente.
Vêm lestas, como os autocarros na rua,
e eu sou a sua última paragem..."
(Sofia Vieira)
NÓS QUE NÃO SOMOS NATURAIS
"Nós que não somos naturais,
porque somos quem nega a natureza,
não morreremos nunca de animais a morte.
Essa morte primeva, com que acabam
os que jamais souberam que viviam,
não nos pertence desde a hora em que
de humanidade nos fizemos homens
e ao sofrimento abrimos esta carne
embebendo-a do amor que não devera ser
mais que o cio do prazer sem nome
e sem memória alguma.
Nunca mais havemos de morrer em paz
e espanto de se acabar o mundo
e não nós nele.
O que nos mata é a solidão povoada..."
(Jorge de Sena)
porque somos quem nega a natureza,
não morreremos nunca de animais a morte.
Essa morte primeva, com que acabam
os que jamais souberam que viviam,
não nos pertence desde a hora em que
de humanidade nos fizemos homens
e ao sofrimento abrimos esta carne
embebendo-a do amor que não devera ser
mais que o cio do prazer sem nome
e sem memória alguma.
Nunca mais havemos de morrer em paz
e espanto de se acabar o mundo
e não nós nele.
O que nos mata é a solidão povoada..."
(Jorge de Sena)
PÁSSAROS DE VAPOR
"Tenho que bater com a porta
e sair a correr
atirar-me para a erva a chorar
esperar o consolo do meu cão
que me procura a cara
com o focinho quente
ou atirar-me para a cama
a chorar e molhar a almofada
as lágrimas descem
pelo canto dos olhos
como os rios desviados
são salgadas
da mesma água do mar
quando está calmo e só
de tarde
gosto de chorar
em frente dos homens
para que me abracem
ou me vejam
no meu momento
de máxima beleza
com essas pérolas
rolando pela cara
como se eu fosse
de cristal ou de água
dos chuviscos
desculpem-me
como atrás
dos chuviscos
no espelho da casa de banho
às vezes
ponho gotas de água
lágrimas falsas
que deixo cair
da ponta dos meus dedos
às vezes dou-me beijos no espelho
e ficam marcados os lábios
como pássaros de vapor..."
(Roberta Iannamico)
e sair a correr
atirar-me para a erva a chorar
esperar o consolo do meu cão
que me procura a cara
com o focinho quente
ou atirar-me para a cama
a chorar e molhar a almofada
as lágrimas descem
pelo canto dos olhos
como os rios desviados
são salgadas
da mesma água do mar
quando está calmo e só
de tarde
gosto de chorar
em frente dos homens
para que me abracem
ou me vejam
no meu momento
de máxima beleza
com essas pérolas
rolando pela cara
como se eu fosse
de cristal ou de água
dos chuviscos
desculpem-me
como atrás
dos chuviscos
no espelho da casa de banho
às vezes
ponho gotas de água
lágrimas falsas
que deixo cair
da ponta dos meus dedos
às vezes dou-me beijos no espelho
e ficam marcados os lábios
como pássaros de vapor..."
(Roberta Iannamico)
quarta-feira, 28 de abril de 2010
ASSOMBROS
"Às vezes,
pequenos grandes terremotos ocorrem
do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata
rolam alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos já me viram
remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro..."
(Affonso Romano de Sant'Anna)
pequenos grandes terremotos ocorrem
do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata
rolam alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos já me viram
remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro..."
(Affonso Romano de Sant'Anna)
terça-feira, 30 de março de 2010
RUMO AO SUMO
"Disfarça, tem gente olhando.
uns olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando
olhando ou sendo olhado...
Outros olham pra baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada..."
(Paulo Leminski)
uns olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando
olhando ou sendo olhado...
Outros olham pra baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada..."
(Paulo Leminski)
domingo, 21 de março de 2010
NÃO SOU UM LIVRO ABERTO
"Não sou um livro aberto,
não tenho que ser,
sou dono das minhas páginas
e publico as histórias que quiser.
Não gosto de ser folheado,
é um direito meu, inalienável,
exponho ou omito os capítulos que desejar,
conto contos que julgar devam ser lidos."
(Autor Desconhecido)
não tenho que ser,
sou dono das minhas páginas
e publico as histórias que quiser.
Não gosto de ser folheado,
é um direito meu, inalienável,
exponho ou omito os capítulos que desejar,
conto contos que julgar devam ser lidos."
(Autor Desconhecido)
LAMENTOS
"Há um grito nos ventos
Brilhando em versos,
Deixando na face escorrer
Raros devaneios tortos,
Luz te desenhando em suavidade!
Meu chão é de giz,
Minha escrita é o detalhe da dor
Viajando amiúde na solidão,
Há um jardim do beijo saudoso
O poema és tu em pedras lapidadas!
Tua poética é meu céu
De chamas, estrelas e brumas
Adormecendo sob as águas,
Espelhando sobre a seda marfim
Minha poesia...
De coração, alma e cor!
Do encontro o silêncio vagando
Anunciando-te em canções
Entoadas no olhar, no teu olhar
Feito pétala orvalhada na mágica
Do sentimento lamentando a sedução!"
(Auber Fioravante Júnior)
Brilhando em versos,
Deixando na face escorrer
Raros devaneios tortos,
Luz te desenhando em suavidade!
Meu chão é de giz,
Minha escrita é o detalhe da dor
Viajando amiúde na solidão,
Há um jardim do beijo saudoso
O poema és tu em pedras lapidadas!
Tua poética é meu céu
De chamas, estrelas e brumas
Adormecendo sob as águas,
Espelhando sobre a seda marfim
Minha poesia...
De coração, alma e cor!
Do encontro o silêncio vagando
Anunciando-te em canções
Entoadas no olhar, no teu olhar
Feito pétala orvalhada na mágica
Do sentimento lamentando a sedução!"
(Auber Fioravante Júnior)
UM EXTREMO DE LUCIDEZ
"Loucura, eu penso,
é sempre um extremo de lucidez.
Um limite insuportável.
Você compreende, compreende,
compreende e compreende
cada vez mais, e o que você vai...
Compreendendo
é cada vez mais aterrorizante.
-então você "pira".
Para não ter que lidar com o horror..."
(Caio Fernando Abreu)
é sempre um extremo de lucidez.
Um limite insuportável.
Você compreende, compreende,
compreende e compreende
cada vez mais, e o que você vai...
Compreendendo
é cada vez mais aterrorizante.
-então você "pira".
Para não ter que lidar com o horror..."
(Caio Fernando Abreu)
CANÇÃO PARA UMA VALSA LENTA
"Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amar, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...
Minha vida não foi um romance
Minha vida passou por passar
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.
Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches de vida
De surpresa, de encanto, de medo!
Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar!"
(Mário Quintana)
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amar, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...
Minha vida não foi um romance
Minha vida passou por passar
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.
Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches de vida
De surpresa, de encanto, de medo!
Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar!"
(Mário Quintana)
VÁ!
"Vá,
queres um tempo?
Vá,
eu já não ligo.
Viva à sombra de seu umbigo.
Se não queres mais alimentar o meu amor,
nem me encantar com poesia,
tampouco iluminar minhas noites vazias,
vá então!
Ficarei com as rimas de meus versos
fiel confidente dia após dia..."
(Vania Gondim)
queres um tempo?
Vá,
eu já não ligo.
Viva à sombra de seu umbigo.
Se não queres mais alimentar o meu amor,
nem me encantar com poesia,
tampouco iluminar minhas noites vazias,
vá então!
Ficarei com as rimas de meus versos
fiel confidente dia após dia..."
(Vania Gondim)
SÓ!
"Perdeu o encanto
E quiçá não vire cinza.
A palavra errada
Mesmo na hora certa
Às vezes fere de morte e dói.
Não temo pelo não,
Temo pelo afastamento
Condicionante para a solidão.
E não há nada a se fazer
Após o carimbo batido
Fica-se rotulado: É proibido.
O tempo ameniza, mas não apaga
O sonho divaga, mas não realiza.
Pobre mortalidade,
Pobre individualidade
Somos uno e somos sós!"
(Santaroza)
E quiçá não vire cinza.
A palavra errada
Mesmo na hora certa
Às vezes fere de morte e dói.
Não temo pelo não,
Temo pelo afastamento
Condicionante para a solidão.
E não há nada a se fazer
Após o carimbo batido
Fica-se rotulado: É proibido.
O tempo ameniza, mas não apaga
O sonho divaga, mas não realiza.
Pobre mortalidade,
Pobre individualidade
Somos uno e somos sós!"
(Santaroza)
TENHO TANTO SENTIMENTO...
"Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar..."
(Fernando Pessoa)
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar..."
(Fernando Pessoa)
SOBRE ESTRELAS
"Deitada na grama,
o céu empoeirado de estrelas.
Passei o dedo e -curioso–
algumas vieram grudadas na ponta.
Olhei para cima e assoprei.
Foi tanta estrela caindo
que agora eu mal consigo enxergar
de tanta esperança..."
(Rita Apoena)
o céu empoeirado de estrelas.
Passei o dedo e -curioso–
algumas vieram grudadas na ponta.
Olhei para cima e assoprei.
Foi tanta estrela caindo
que agora eu mal consigo enxergar
de tanta esperança..."
(Rita Apoena)
sexta-feira, 19 de março de 2010
SOBRE A MESA DEIXEI ALGUMAS PALAVRAS...
"Sobre a mesa deixei algumas palavras
para gastarem a sua precisão obscura
ressumando humidades,
revelando o percurso do pensamento pela estação
até se identificarem com os cursos de água
que vemos por alguns dias
as principais páginas que nos forçam
a herança, disseminadas pelo ruído até aos ossos
e quando abro a porta, de regresso, encontro-as
tão breves sobre o meu ouvido, atentas
à minha maneira de andar descalço..."
(Vasco Ferreira Campos)
para gastarem a sua precisão obscura
ressumando humidades,
revelando o percurso do pensamento pela estação
até se identificarem com os cursos de água
que vemos por alguns dias
as principais páginas que nos forçam
a herança, disseminadas pelo ruído até aos ossos
e quando abro a porta, de regresso, encontro-as
tão breves sobre o meu ouvido, atentas
à minha maneira de andar descalço..."
(Vasco Ferreira Campos)
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