sábado, 5 de junho de 2010

PRECISO SER OUTROS

"A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou
-eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito
que abre portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc...
Perdoai, mas eu preciso ser outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas."
(Manoel de Barros)

quarta-feira, 2 de junho de 2010

REBELE-SE

"Rebele-se ao seguro
Ao comum, ao desjejum
Estranhe tudo.
Descotidiane-se navegue-se
Não menos que fundo.
Não se culpe pelo que não cometeu
Não se responsabilize pelo que não é seu
Seja correto, mas questione o certo
Seja justo a qualquer custo.
Erre e desgoverne-se, perca o facho
Deponha o "se", destrone o "acho".
Mergulhe na lama como quem ama
Abandone o leme, como quem não teme.
Pule a cerca, rompa a casca
Não queira entender.
Se encontra,
Quem é livre pra se perder..."
(Rosam Cardoso)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

EU NÃO QUERO SER MAIS EU MESMO

"Eu sinto uma beleza quase insuportável e indescritível.
Como um ar estrelado, como a forma informe,
como o não-ser existindo,
como a respiração esplêndida de um animal.
Enquanto eu viver terei de vez em quando
a quase-não-sensação do que não se pode nomear.
Entre oculto e quase revelado.
É também um desespero faiscante
e a dor se confunde com a beleza
e se mistura com a alegria apocalíptica.
Gostaria de viver exclusivamente
da meditação tola e fecunda
na contemplação da morte e de Deus.
Gostaria de dedicar-me a beijar crianças.
Transportar-me eu vos suplico,
eu não quero ser mais eu mesmo.
Eu sou vós.
Sinto necessidade de arriscar minha vida.
Só assim vale a pena viver..."
(Clarice Lispector)

terça-feira, 25 de maio de 2010

GOTAS DE CHUMBO

"Gotas de chumbo engolem o brilho dos sóis
Soterrados atrás das nuvens
Enquanto caem sobre as ruas das cidades
O vento dispersa o odor das línguas bolorentas
Bueiros observam os pedestres
Sangrando seus calcanhares
Em recriadas horas mortas
As nuvens do céu cospem chumbo e fel
Sobre o espetáculo das sedentas almas banguelas
Trabalhando em seus edifícios
De dúzias de andares vazios
E paredes sufocadas por gritos contidos
A maré suicida transita entre as almas
À espera do próximo prato cheio de nada
Cuidadosamente posto sobre a mesa
Vestida em elegante toalha de prata..."
(Flávio Umaguma)

À UM AMIGO QUERIDO...

"Não se esqueça de trancar a porta e aguar as plantas,
de dar comida ao gato e desligar as luzes quando for sair.
Não se esqueça de pagar o aluguel e comprar detergente,
da prova de sexta-feira e da consulta na quinta.
Não esqueça o fogão ligado ou as meias dentro dos sapatos,
ou mesmo os sapatos fora do armário.
Mas, sobretudo, meu amigo, não se esqueça do azul.
Ainda que esteja distante e um tanto enegrecido,
não se esqueça do azul. E nem se esqueça da coragem;
por que você vai precisar dela algum dia,
mais do que essas calças brancas ou esses óculos,
mais do que essas festas longas e essas alegrias curtas.
Não se esqueça do seu motivo, meu amigo.
E traga consigo, quando de sua visita, um livro bom,
um caso sem fim, e um sorriso.
Mas não esqueça os pés dentro do mundo
nem os dedos nas feridas
–pra que se esquecer de que tudo se cura?
Não se esqueça do tempo, nem que para isso
seja preciso esconder o relógio na escrivaninha
e chegar atrasado um ou dois dias.
E se der um passo, não se esqueça do outro,
e se for cair, não se esqueça de se levantar,
e se for para ficar só, não se esqueça de chorar.
Não esqueça uma lágrima sequer, nem esqueça um suspiro,
por que um dia,
quando se lembrar de tudo que passou, meu amigo,
você vai sorrir..."
(Zero)

AQUI DENTRO

"Para o frio nada melhor
que o silêncio nos braços da noite
um pouco de nada me basta.
A música colcheias em minha cabeça
me eleva a um não-lugar sem palavras.
Na xícara de chá de hortelã
minhas mãos se aquecem
encosto-a no peito
um gole me esquenta por dentro.
Me aconchego na solidão
onde descanso a minha história
que em pausa pousou em paz..."
(Ingrid)

É PRA ENTENDER...

"Mais simples seria se eu enfim falasse
ou soubesse como agir com as pessoas em geral,
e se eu não me empolgasse e fosse mais retraída,
ao invés de contar a todos menos a quem interessa.
Acho que pouco importa novos romances no dia de hoje,
vai ver pouco importa a felicidade a muitos.
Triste época!
Meu mais doce interior revela o quanto busco pelo amor
insana-mente querendo mais e mais felicidade,
e as vezes também taxada de louca,
vai ver eu entendo o que muitos poetas queriam dizer
com suas ultimas palavras...
Ou talvez eu não saberei o que é realmente amor,
e descobrir paixões a cada noite.
Tem sido uma delicia !
Eu ainda tenho muito a andar, tenho muito a conhecer.
Vivendo como um coração boêmio sem rumo certo
a quem recorrer na hora de tristeza,
preciso mesmo me encontrar e descobrir por onde
eu tenho que passar pra chegar em fim no meu destino,
qual almejo muita felicidade,
eu sei que biblicamente não há mais salvação,
mais Deus ainda vai dar a chance
pra quem precisar de um sorriso pra acordar .
Eu estou do lado da vida, do amor.
o outro lado não me interessa..."
(Ana Marcela)

TOMA ESSE CORAÇÃO DEMAIS...

"O coração está pleno de sua imagem
-deixe eu saber como você está-
Uma cordilheira com tantos mistérios
Chama-me,porém em muitos instantes
só quer me deixar ver tantas dores
A menininha do vestido azul
está descalça para acompanhar-te
Dê-me as chances para você mesmo
sentir tanto amor meu.
Quem dera eu ter tanta força assim
para ser tão explícito
Talvez com tanta misericórdia
você veja todos eus
Olhe para mim e chore,por favor!
Estou descalça só para te machucar...
não há querer algum, é só para a percepção
É tão sensível como os pés de sangue...
Está vendo como é tão boba,
me dê um pouco de alma segura
e toma esse coração demais.
Vai ter o gosto de tanto querer saber
e ter e respirar-te e amor e viver-te..."
(Dana Campos)

A GENTE DISFARÇA AS INDIFERENÇAS

"A gente disfarça as indiferenças
a sua beleza não sustenta
finais de semana prolongados.
Se perde na tarde de sábado
enquanto esperamos o sol
cair de nossas cabeças...
Discutindo sonhos
e a revolução industrial
sem saber se é melhor
pra mim ou pra nós dois.
Inventar um riso novo
e uma mentira satisfatória
sobre seu futuro promissor
na escola de artes do centro..."
(V. Abreu)

BEIJO DE POETA

"Que não desmanche a palavra
que se esconde na minha boca
mas a ela acrescente vida
esse ritmo de canção
que conheça linguagens
minha conversa, meu tom
e divida comigo o movimento
metafórico ou meteórico
do som das coisas não ditas
do corpo dos sonhos
da cor da palavra escrita
da linha cortada
da língua que, por ser completa,
pelos lábios toca a alma..."
(Fran Rodrigues)

O SUICIDA

"Não ficará na noite uma estrela.
Não ficará a noite.
Morrerei e comigo a suma
Do intolerável universo.
Apagarei as pirâmides, as medalhas,
Os continentes e as caras.
Apagarei a acumulação do passado.
Farei pó a história, pó o pó.
Estou olhando o último poente.
Ouço o último pássaro.
Lego o nada a ninguém..."
(Antonio Cicero)

PASSAGEM DAS HORAS (fragmento 3)

"Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo,
seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores
porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores
porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos
em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser..."
(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)

INTERVALO

"É a pessoa sem nome com quem você conversa
desinteressado no ponto de ônibus.
O salgadinho ruim com o qual te empanturram
antes de servirem o bolo.
É o olhar das crianças dentro de casa
enquanto rezam pra chuva passar.
Um passatempo durante a viagem de volta pra casa.
Você na história de alguém.
Alguém na sua história.
Intervalo é a coisa disforme e sem sabor
que existe durante uma espera..."
(Fran Rodrigues)

ELOGIO DA DISTÂNCIA

"Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores
do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.
Aqui, coração
que andou entre os homens,
arranco do corpo as vestes
e o brilho de uma jura:
Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.
Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.
Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.
Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço."
(Paul Celan)

DEBAIXO DO CRÂNIO

"Isso que não pára, pulsa
e dispara, isso sou eu?
Mas como? É só
a massa cinzenta de dentro.
Ela me observa,
eu a observo.
Um surpreende o outro.
Nem sempre meu cérebro faz
o que eu quero. Mal-entendidos,
conflitos não faltam.
Quando cai a noite,
eu tento, simplesmente,
desligá-lo. Em vão.
Ele segue a trabalhar, a produzir,
invenções de própria lavra,
e delas nada sei,
por elas mal respondo.
Volta e meia, sem consulta-lo,
eu também faço das minhas.
E só muito tarde paramos
de espreitar um ao outro
e deixamos estar.
Então se faz, por fim, a paz."
(Hans Magnus Enzensberger)