sábado, 21 de agosto de 2010

EU, EU MESMO...

"Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar.
– Eu... Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira
Para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu... Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu... Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu... Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu..."
(Fernando Pessoa)

ESTRANHO TAMBÉM ESSE AMOR

"Estranho também esse amor,
com hora marcada para a mutilação
da morte, o minuto acertado,
e o fim consultando o relógio
para nos golpear.
Estranho esse amor de agora,
com meu amado atrás de um espelho baço
onde às vezes penso divisar seu vulto
como num aquário.
Enrolado em silêncio,
mais que nunca o meu amor
comanda a minha vida..."
(Lya Luft)

EU SEI QUANTO TE AMO

"Eu sei quando te amo:
é quando com teu corpo eu me confundo,
não apenas nesta mistura de massa e forma,
mas quando na tua alma eu me introduzo
e sinto que meu sangue corre em ti,
e tudo que é teu corpo
não é que um corpo meu
que se alongou de mim.
Eu sei quando te amo:
é quando eu te apalpo e não te sinto,
e sinto que a mim mesmo então me abraço,
a mim que amo e sou um duplo,
eu mesmo e o corpo teu pulsando em mim."
(Afonso Romano de Sant'Anna)

EM BUSCA DESTE ANSEIO...

"Não sei se volteio,
Se rodopio, se quebro, se tombo
Nesta queda em que passeio.
Não sei se a vertigem em que me afundo
É este precipício em que me enleio.
Não sei se cair assim me quebra.
Me esmago ou sobrevivo
Em busca deste anseio..."
(Maria Teresa Horta)

QUERO DESCOBRIR

"Quero descobrir
Teu corpo, teu suor
Percorrendo, correndo
Sem pressa os instintos.
Deixar mãos colarem pernas
Marcarem seios, rasgarem bocas.
Quero tua descoberta
Feita em meu corpo
Na luxúria nossa de cada dia..."
(Paulo Mont'Alverne)

ASSIM É QUE ME QUERES...

"...Então me vens e me chegas
e me invades e me tomas e me pedes
e me perdes e te derramas sobre mim
com teus olhos sempre fugitivos
e abres a boca para libertar novas histórias
e outra vez me completo assim, sem urgências,
e me concentro inteiro nas coisas que me contas,
e assim calado, e assim submisso,
te mastigo dentro de mim
enquanto me apunhalas com lenta delicadeza
deixando claro em cada promessa
que jamais será cumprida,
que nada devo esperar além dessa máscara colorida,
que me queres assim, porque é assim que és
e unicamente assim é que me queres..."
(Caio Fernando Abreu)

TANTO

"Nada entendo de signos:
se digo flor é flor, se digo àgua é água.
-Mas pode ser disfarce de um segredo-.
Se não podem sentir, não torçam
a árvore-de-coral do meu silêncio:
deixem que eu represente meu papel.
Não me queiram prender como a um inseto
no alfinete da interpretação:
se não me podem amar, me esqueçam.
Sou uma mulher sozinha num palco,
e já me pesa demais todo esse ofício.
Basta que a torturada vida das palavras
deite seu fogo ou mel na folha quieta,
num texto qualquer com o meu nome embaixo."

(Lya Luft, para Lygia F. Telles)

EM SILÊNCIO...

"E então ficamos os dois em silêncio,
tão quietos como dois pássaros na sombra,
recolhidos ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite,
dois caminhos que se juntam
num mesmo caminho.
Já não ouso, já não coras.
E o silêncio é tão nosso,
e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas.
Nada há mais a dizer,
depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos.
Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos..."
(J.G. de Araújo Jorge)

PALAVRAS E SILÊNCIO...

"Há algumas coisas que são lindas demais
para serem descritas por palavras.
É necessário admirá-las em silêncio
e contemplação para apreciá-las
em toda sua plenitude.
É necessário tão poucas palavras
para exprimir a sua essência.
As grandes falas servem frequentemente
só confundir ou doutrinar.
O silêncio é mais esclarecedor
que um fluxo de palavras.
Olhe para uma mãe com criança no colo.
O bebê sabe obter tudo o que quer
sem dizer ao menos uma palavra.
De fato, palavras devem ser
a embalagem dos pensamentos.
Não adianta fazer discursos muito longos
para expressar os sentimentos de seu coração.
Um olhar conta um pouco mais
que uma carreira de palavras.
É caracteristica das grandes mentes
fazer com que em poucas palavras
muitas coisas sejam ouvidas.
As mentes pequenas, acham que têm,
pelo contrário a concessão para falar,
e não dizer nada.
Falam bobagens, mas há aqueles
que sabem o que escutar para colher.
Se duas palavras só são necessárias dizer
-que eu gosto de você-,
todas as outras palavras que poderiam ser ditas
são supérfluas...
Sim e não são as palavras mais curtas
e fáceis de serem ditas mas são aquelas
que trazem as mais pesadas consequências.
Ser comedido em suas palavras não é um defeito
mas prova profunda sabedoria.
Aquele que fala muito quase nunca
tem sucesso para organizar as coisas.
Tendes antes a confundir..."
(Florian Bernard)

JÁ GASTAMOS AS PALAVRAS

"Já gastamos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastamos tudo menos o silêncio.
Gastamos os olhos com o sal das lágrimas,
gastamos as mãos à força de as apertarmos,
gastamos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastamos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certezade que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus."
(Eugénio de Andrade)

REVELAÇÃO

"Quando chegaste,
redescobri em mim inocência e alegria.
Removi a máscara que sobrava:
nada havia a esconder de ti,
nem medo - a não ser partires.
Supérfluas as palavras,
dispensada a aparência,
fiquei eu, sem prumo,
como antes da primeira dúvida
e do último desencanto.
Quando chegaste,
escutei meu nome como num outro tempo.
o meu lado da sombra entregou
o que ninguém via:
as feridas sem cura
e a esperança sem rumo.
Começa a crer, por mim,
que o amor é possível,
e que a vida vale a pena
e o pranto de cada dia..."
(Lya Luft)

EIS O QUE SOU...

"Um misto de fracasso e conquista,
Coragem e medo,
Brutalidade e fragilidade,
Vida e morte, mulher e bicho,
Sonhos e pesadelos.
Sou um fio de esperança.
Um medo transmutado de coragem.
Tão frágil como a rosa que se avista.
Brutal no cinzentismo da paisagem.
Assim mulher e bicho me retrato.
Mesclando o pesadelo com o sonho.
E vivo de incertezas... e me mato.
Num fio de esperança que reponho."
(Jorge)

O QUE FAZER?

"O que fazer entre um orgasmo e outro,
quando se abre um intervalo
sem teu corpo?
Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?
Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?
Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o sopro da vida de tua boca?
O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?"
(Affonso Romano de Sant'Anna)

HOJE EU SOU...

"Hoje eu sou
Um cigano que foge da dor
Um oceano sem navegador
Hoje eu sou
Um fulano que a sorte marcou
Condenado a ser um sonhador
Hoje eu sou
De ninguém...
Eu nunca estive tao lucida,
tao em perfeito estado mental,
eu nunca estive tao bem.
Eu nunca entendi a frase,
ame a si mesmo,
antes de amar qualquer outra pessoa.
Mas agora sei o que significa:
Pra cuidar de alguém,
antes temos que cuidar de nos mesmos.
Hoje eu sou mais leve de alma
mais iluminada, mais feliz,
mais alegre E mais eu...
Depois que a tempestade passou,
em meio aos destrocos no mar,
eu encotrei o meu corpo,
eu encontrei a mim mesma,
navegando em oceanos profundos,
sem medo de naufragar.
Hoje eu jogo no mar, flores..."
(Verônica)

ESSA MENINA...

"Essa menina que
Foge pelas tuas palavras
Pede colo.
Pede o colo que a distância
Não te deixa ter.
Vistas estas asas
Que embalam o teu corpo
E deixa-te perder por entre as nuvens
De sonhos e pensamentos,
Pois o cúmplice vento te colocará
Num galho alto onde a vista é bela
E eu trancei teu ninho...
Pois tu és,
Menina de todas as histórias.
Contos que o tempo não apaga,
Não acorda, não desperta.
Tu és a mais linda adormecida das crianças,
Da carruagem em forma de ferrari,
Dos castelos de argamassa e de azulejo colorido,
Dos cavalheiros de capacete, motocicleta,
Das bonecas de todas as vestes,
De trapo de seda,
Aos tecidos indianos de moleca..."
(Silvio Afonso)