domingo, 24 de janeiro de 2010

PARA SALVAR OS NÁUFRAGOS

"Vou falar-te das vezes que morri,
sufocada de sombras, tão capaz me sinto de morder
as lembranças que intimidam minhas mãos.
Ele entrou, subitamente, no meu sorriso esquivo
e eu retornei, mansamente, à raiz da ternura,
em multiplicado espanto.
Por isso, quero escrever, sem confidências,
os vestígios da maresia
nos meus olhos submersos nos dele
e deixar que a fogueira que me arde no olhar
ateie um lume mais noturno.
Perdi a inocência mal o avistei.
Reconhecer-lhe-ia os passos à máxima distância,
tão nítida se tornou para mim a sua sombra.
Às vezes, de madrugada,
a minha pele tinha o cheiro dele,
como se me tivesse abraçado a noite inteira.
Apetecia-me, então, roçar-lhe os dedos no peito,
ou tomá-lo nos braços, como quem embala um filho.
Diz-me tu: como evitar esta emboscada
de me deixar dominar
pela excessiva claridade do seu rosto?
Dizem que aqueles que o seguiam
traziam sobre os olhos um novo sistema solar,
onde era possível ver no escuro
todas as margens dos rios
e ouvir no firmamento todo o silêncio do mundo.
Mas eu não sabia que, em suas mãos,
se abrigavam os barcos regressados da faina
e que os pescadores
recolhiam as redes nos seus dedos.
Eu não sabia que o bando de pássaros que o seguia
amainava os ventos e as águas noturnas,
para que o luar nos embalasse.
Eu não sabia que lhe bastava olhar as conchas
para salvar os náufragos,
ou fitar os meus olhos para que eu me perdesse..."
(Graça Pires)

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