domingo, 24 de janeiro de 2010

QUANDO VOLTARÁS?

"Há uma rotação do teu corpo
–Andas pela casa:
és um leve rumor sob o silêncio
um rumor que alumia a sombra silenciosa;
na sala, o homem quase surdo quase cego
ouve-te, julga reconhecer-te: vens aí.
Estás aqui. O intervalo de tempo já começou:
há uma rotação no teu corpo
que me exclui do mundo
e entretanto é feita para mim;
atinge-me à velocidade da luz.
E eu o homem quase surdo quase cego
sou tomado pelo vento do fogo que me consome
até ser apenas a última brasa:
pequenas ravinas de luz
o incêndio restante sob a exausta crosta da terra.
Estavas, estiveste ali.
O tempo recomeça.
Apareces e desapareces.
Como a luz do farol
disparando no céu sobre as casas
ou como o anúncio luminoso do prédio em frente
que varre intermitente a obscuridade do quarto no filme.
Quando voltará?
É como se soubesses que voltará, sim,
e que não, não poderá voltar.
Quando, e se voltar, serei eu talvez
quem já lá não está.
Quando é quando?
Quanto tempo ainda poderá o mundo voltar
à possibilidade dessa forma?"
(Manuel Gusmão)

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