sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

AO SILÊNCIO

"Como é difícil entendermo-nos com a vida.
Nós a compor, ela a estragar.
Nós a propor, ela a destruir.
O ideal seria então não tentarmos
entender-nos com ela mas apenas conosco.
Simplesmente o nós com que nos entendêssemos
depende infinitamente do que a vida faz dele.
Assim jamais o poderemos evitar.
E todavia, alguns dir-se-ia conseguirem-no.
Que força de si mesmos ou importância de si mesmos
eles inventam em si para a sobreporem ao mais?
Jamais o conseguirei.
O que há de grande em mim equilibra-se
nas infinitas complacências da vida
que me ameaça ou me trai.
E é nesses pequenos intervalos
que vou erguendo o que sou.
Mas fatigada decerto de ser complacente,
à medida que a paciência se lhe esgota
em ser intervalarmente tolerante,
ela vai-me sendo intolerante sem intervalo nenhum.
E então não há coragem que chegue
e toda a virtude se me esgota na resignação.
É triste para quem sonhou
estar um pouco acima dela.
Mas o simples dizê-lo
é já ser mais do que ela.
A resignação total
é a que vai dar ao silêncio."
(Vergílio Ferreira)

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