quarta-feira, 21 de outubro de 2009

NÃO TENHO MAIS TEMPO...

"Quero algo brutal, expelido das entranhas,
cansei do lirismo, da poesia.
Quero minha fome saciada, cansei de morrer de inanição.
Cansei de arranhões, não tenho tempo,
quero fratura exposta, sangue a jorrar das artérias,
viscoso a limpar o chão dos meus passos trôpegos,
tingindo de vermelho
esse rosado esmaecido da minha vida sem você.
Quero gritos, gemidos e sussurros ferem meus ouvidos.
Quero lacerações na carne,
dentes afiados cravados onde lhe aprouver.
Quero muito. E tenho pressa.
Não tenho mais tempo, meu relógio já não conta os segundos,
minutos, horas, conta atos, ainda que falhos.
Não quero beijos que não me derretam por dentro, por completo.
Morda, rasgue, me retalhe em postas,
não tenho mais tempo para a delicadeza.
Não quero tuas palavras me chegando calmas,
grite obscenidades no meu ouvido, me ensurdeça com teu silêncio,
faça-me falar até gastar tudo aquilo que engoli.
Quero te vomitar de mim,
te dar uma outra forma que não a do amor idealizado.
Aliás, não quero amor, não tenho tempo,
principalmente quando me chegas toda a dor.
Quero gritar, estilhaçar espelhos em que te vejo,
lançar maldições a esmo,
exterminar com requintes de crueldade todos os gatos pretos,
me jogar numa imensa fogueira para ver se derreto e te esqueço.
Quero partir, mesmo sem lugar para ir,
você é estrada de todos os meus caminhos.
Me lançaria ao mar se soubesse que vou me afogar,
infelizmente, aprendi a nadar contra a maré.
Quero quebrar pratos, copos, garrafas que já me embriagaram.
Vazias, estão empilhadas num canto, guardam lugar para mim.
Quero fora de mim toda essa fúria que me corrói as vísceras,
não tenho tempo para a morte lenta,
prefiro poderosos venenos que se alastram.
Desisti até dos cortes nos pulsos.
Não tenho tempo.
Na verdade, quero, tanto, recostar no teu peito
e poder descansar, mas nem isso.
Não tenho mais tempo..."
(Rosana Ribeiro)

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