quinta-feira, 15 de outubro de 2009

DEVOLVA-ME A MIM...

"Fico aqui à tua espera e temo que não venhas.
Fico à tua espera, mesmo sabendo que não vens.
Sei que não vens, mas mesmo assim fico.
Ainda te lembrarás de mim? Fico.
Não me perguntem nada, deixem-me ficar apenas...
Fico ao frio desta noite gélida de um dia de maio.
Fico à mercê das vagas revoltas que me lambem o cabelo.
Fico à janela deste cigarro, único farol de mim.
Desde que saíste eu nunca mais fui a mesma.
Quando cheguei e não estavas não me encontrei.
Procurei-me e procurei-me mas em vão.
Não sei de mim,
onde me terei guardado, onde me terei metido.
Não sei de mim.
Se calhar levaste-me.
Procura recordar-te, vê se te lembras.
É importante para mim. Faço-me falta.
Pensa bem. Tenta recordar-te.
Comigo terás levado aquela gargalhada aberta,
que tão bem me fazia.
Procura bem nos bolsos do casaco.
No bolso de trás das calças onde eu me metia
quando passeávamos pela rua agarrados.
Procura-me entre o teu cabelo,
vê lá se não é a mim que ainda cheira o teu cabelo.
Procura-me bem no teu peito,
pelas vezes que nele adormeci em tantas noites de televisão.
Procura-me no teu olhar.
Não é outra senão eu quem ainda vês,
sentada de costas para ti nessa esplanada,
onde por acaso te apanhas se distraído do jornal.
Procura-me nas tuas narinas.
Diz-me lá se não é a mim
que te cheira a camisa que vestes pela manhã.
Não voltas eu sei,
mas ao menos devolve-me, ainda me tens?"
(Sofia Vieira)

Um comentário:

Iriarte disse...

Adorei seu blog amigo Luís, de um bom gosto ímpar... obrigada meu amigo, por convidado-me para aprecia-lo. Fiquei muito emocionada... com tanta beleza! poemas e poesias maravilhosas. Beijos da amiga. Iriarte Sartoretto