quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O AMOR COMEU A MINHA PAZ...

"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato.
O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço.
O amor comeu meus cartões de visita.
O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minha altura, meu peso,
a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa.
Bebeu a água dos copos e das quartinhas.
Comeu o pão de propósito escondido.
Bebeu as lágrimas dos olhos
que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta,
cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,
e que riscava os livros, mordia o lápis,
andava na rua chutando pedras.
O amor comeu meu Estado e minha cidade.
Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré.
Comeu até essas coisas de que eu desesperava
por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas.
Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio,
os anos que as linhas de minha mão asseguravam.
O amor comeu minha paz e minha guerra.
Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão.
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça,
meu medo da morte..."
(João Cabral de Melo Neto)

3 comentários:

Maria L. Bózoli disse...

texto lindíssimooooooooooo
Boa Noite.......Beijos meus!

Vitória disse...

muito lindo....
você tem bom gosto nos textos que escolhe.
continue assim.
abraços.

Su disse...

Meu querido amigo, você, como sempre, escolhendo textos lindíssimos para colocar no seu blog. Parabéns pelo bom gosto e sensibilidade.
Beijos e flores,
Su