segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

EU TE ADORO!

"Queria escrever qualquer coisa,
mas só me sai que te adoro.
Queria opinar sobre a economia e os sintomas de retoma,
o perfil dos novos ministros e a impunidade judicial,
mas só me sai que te adoro.
Discorrer sobre a inconstância do tempo,
sobre o estio que rasgou o Outono,
as últimas alterações à lei,
o banqueiro constituído arguido,
a mediocridade nacional, a decadência do ensino,
a propagação da gripe A,
mas só me sai que te adoro.
Queria descrever com precisão
as saudades que tenho da terra, de palmilhar a lezíria
e de sentir ao longe o rumor dos animais.
Queria à falta de melhor falar sobre as últimas do desporto,
das hipóteses rasas da selecção,
da nova série da fox e da pinderiquice dos ídolos;
e alertar os incautos para os desencontros
que desaguam em silêncios e que cortam vidas ao meio,
mas só me sai que te adoro.
Queria fazer piadas, armar-me em esperta,
soltar citações a propósito e observações espirituosas,
suscitar sorrisos cúmplices e respostas aduladoras;
e dizer-te que afinal te detesto,
que pensando bem te desprezo, que nunca foste nem serás;
concluir, enfim, sobre a impossibilidade de sermos um só.
Mas só me sai que te adoro..."
(Sofia Vieira)

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