segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

NUNCA EXISTISTES...

"Saber que não existes, alivia-me,
alija-me o fardo de não te ter tido.
Nunca exististe porque eu te criei,
moldei-te à minha precisão da altura,
meu pigmaliãozinho de araque.
Aquele que cruza os dias indo de casa para o trabalho
e do trabalho para casa,
que passeia o cão que não tem e se abriga
e desalenta na sua própria insônia,
que espera impaciente que discorra mais um domingo
enquanto se asperge em delírios escritos
de palavrosa grandeza, esse, não existe.
Ou melhor, só esse é que existe - nada mais tens para venda,
não comportas quaisquer extras nem me tentas
com promoções ou incríveis descontos, leve dois paga um.
No meu mercado de tubérculos-suspiros
e de leguminosas-enxertadas-de vida,
és coisa sem valor venal, que não justifica sequer
o dispêndio administrativo da hasta pública;
se atender ao direito de propriedade
de qualquer uma das minhas veias, dir-te-ei res nullius.
A constatação é-me razoavelmente feliz:
por agora, só existe a microscopia do que de ti sobra;
nada resta da nobreza que te inventei..."
(Sofia Vieira)

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